sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Quem construiu a Tebas de sete portas?



Mas o que via o operário

O patrão nunca veria

O operário via casas

E dentro das estruturas

Via coisas, objetos

Produtos, manufaturas.

Via tudo que fazia

O lucro do seu patrão

E em cada coisa que via

Misteriosamente havia

A marca da sua mão.

E o operário disse: não!

Vinícius de Moraes (trecho do poema O operário em construção)




Hoje me recuso a ser pautada pela mídia gorda. Hoje quero dar um tempo nas leituras das Vejas e Épocas, não quero fazer referência a nada que vi na TV Globo, nem mesmo ao aberrante programa do Jô Soares em que ele vomita preconceitos raciais e de gênero ao comentar a vida sexual das mulheres angolanas. Hoje quero falar de um tipo de gente invisível para esses veículos de desinformação, mas que fazem verdadeiramente esse país no que ele tem de melhor. Tipo de gente que é a maioria do povo brasileiro.


Num bar popular em Fortaleza, ouvindo música brega e bebendo cerveja com amigos, conheci seu Benedito, Bené para os mais chegados. Única mulher no ambiente masculino, no meio de comentários sobre o resultado do jogo do Fortaleza e sobre o DVD pirata de um suposto filme pornô estrelado por Juliana Paes, puxei conversa com o senhor sorridente que bebia tranqüilamente sua cachacinha.


Seu Bené é negro. Seus 55 anos são somados a uma vida sofrida que lhe confere uma aparência de mais idade. Hoje seu Bené está desempregado. Como ele mesmo diz: “quem vai dar emprego para velho?”. Vive fazendo pequenos favores para a vizinhança, que em troca lhe dá comida e apoio. Sua moradia é a calçada do bar ou do Lava-jato em frente.


Quando jovem, seu Bené foi para o Sudeste, como tantos nordestinos, atraído pelas promessas do “milagre brasileiro” produzido pela ditadura civil-militar. “Milagre” que combinava crescimento econômico, superexploração da classe trabalhadora e repressão brutal. Uma das expressões do “milagre” foram as obras faraônicas, importantes para propagandear o Brasil grande e para levar a cifras astronômicas as verbas destinadas às empreiteiras que se locupletavam com dinheiro público. Seu Bené trabalhou em duas delas: a construção da Rodovia do Aço e a Ponte Rio-Niterói. Nesta última escapou da morte por pouco, pois faltou ao trabalho no dia em que um acidente levou a vida de oito companheiros de sua equipe.


Findo o “milagre” artificialmente produzido, depois de muitas dificuldades em arrumar emprego, resolveu voltar ao Ceará. Não tinha dinheiro para a passagem e foi literalmente a pé até Mossoró, Rio Grande do Norte, onde conseguiu sua primeira carona. Seu Bené buscava no seu estado natal o apoio de um tipo de solidariedade que, para os nordestinos, é raro de encontrar na cidade grande. “Em Fortaleza pelo menos não queimam índios nas ruas e ninguém me deixa passar necessidade”.


Seu Bené casou, mas disse que foi porque a mulher ficou grávida, pois, espírito aventureiro, não queria “se amarrar”. O casamento terminou, ficaram duas filhas que estão hoje “encaminhadas na vida”. A mais velha é enfermeira chefe de um hospital de Fortaleza e a segunda prestará vestibular este ano para Direito. Com lágrimas nos olhos, seu Bené disse que se afastou das meninas, pois se não tinha condições de ajudá-las, também não queria atrapalhar as suas vidas e se tornar um peso para a família.


Perguntei ao seu Bené se ele, que tanto tinha trabalhado, recebia aposentadoria e ele respondeu que não. Trabalhou sem carteira assinada boa parte de sua vida e agora tinha de esperar ter 60 anos para tentar uma aposentadoria por idade. Mas não tinha muita esperança de conseguir.


Chegada a hora de ir embora, seu Bené se despediu de mim dizendo que tinha gostado muito de conversar comigo. Elogiou meu português correto e disse que sentia falta de conversar com quem falava assim e podia compreender o contexto histórico de sua trajetória de vida, entendendo o seu sentido. Orgulhoso de sua formação, seu Bené volta e meia afirmava que tinha profissão. Esse mesmo trabalho que, organizado sob a lógica da expropriação capitalista, era fonte de sofrimento, também marcava uma identidade positiva enquanto atividade autocriadora.


Fui para casa pensando como as políticas de extermínio que hoje são assumidas oficialmente pelo governo do meu estado são, na verdade, a face mais explícita de um sistema que é cruel por natureza. O capitalismo é contra a vida humana, animaliza os seres humanos ao condená-los a trabalhar para garantir sua sobrevivência imediata e não para a sua autoemancipação. O brilho que encontrei nos olhos de seu Bené enquanto ele me narrava sua vida é expressão de potencialidade criativa, de energia transformadora, de desejo de felicidade e beleza. A força desse brilho vem da certeza de poder construir o mundo com suas próprias mãos. No entanto, seus limites são impostos por um modo de produção que torna o trabalho escravidão e fonte de sofrimento, estranho ao próprio trabalhador.


Gilmar Mauro, uma das lideranças mais importantes do MST, numa belíssima fala na I Conferência Vozes de Nossa América, realizada recentemente na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, contou sobre seus sentimentos contraditórios quando passava pela avenida Paulista. Se, por um lado, sentia um grande desespero ao ver naquelas construções a materialização da força do capital, por outro, se enchia de esperança ao perceber que tudo aquilo tinha sido erguido pela mão da classe trabalhadora. E, se a classe trabalhadora foi capaz de construir tudo aquilo, ela também seria capaz de por abaixo a ordem do capital e reconstruir um outro mundo, com base em valores humanos.


Pensei nisso, e também em Vinícius, em Brecht e no dia em que gente como seu Bené começar a dizer não.


Adriana Facina (Observatório da Indústria Cultural/UFF)


Publicado originalmente em http://www.fazendomedia.com/, em 12/11/2007

8 comentários:

Urariano Mota disse...

Gostei muito. Literatura para mim é isso. É pensamento e expressão. Gostaria de ter sua visita em um blog de literatura e jornalismo, em http://urarianoms.blog.uol.com.br/
Abraço.

Julio Cesar Lourenço disse...

Gostei muito do texto. Ultimamente ando igual ao cara do Tropa de Elite, vejo pessoas sendo contra as cotas, pessoas falando que professor nao precisa de melhores salários, que nao existe desemprego no Brasil, o que falta sao pessoas qualificadas para assumir as funçoes; quero logo sair dando porrada.

Precisamos conversar mais com as pessoas, estamos cada vez mais perdendo contato com uma possivel realidade total. O filme Crash - no limite mostra bastante isso. Fica de indicaçao

Até logo!

Bruno Deusdará disse...

Simplesmente, ma-ra-vi-lho-so!! Se precisamos reescrever um manifesto comunista para o século XXI, acho que ele, de algum modo, passa por textos como esse. A luta pela emancipação inspira-se numa estética da existência, na afirmação da vida, para além dos padrões de sobrevivência instituídos! Adriana, "obrigado", para esse texto, talvez diga muito mais do que "parabéns!! É bom para começarmos o dia com o pé esquerdo. Valeu!!

Beto Borges disse...

Infelizmente, o texto é verídico. Preferia que fosse verossímil, para atribuir a ele todos os adjetivos que podem ser atribuídos a um excelente texto literário. Fiquei “chapado” com a leitura.

d disse...

Texto mto bonito...porem mto triste...

Como disse o Beto, logo acima de mim, infelizmente veridico...

Esse tipo de acontecimento é o q nos faz sempre pensar, "ate qnd..."

Ricardo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Olá, sou professor de História, e gostei muito do texto, em termos formais muito bem escrito...

Mas se me permite uma opinião sincera, hoje quando procuramos fazer uma história que não fale somente de Napoleões e Ramsés noto a velha idéia catedrática marxista de se falar nas classes oprimidas e do resgate da cultura popular. Mas não somos sempre nós, uma elite cultural; independentemente de nossa origem, a analisar e intepretar e tomar a palavra por esses trabalhadores? Que emancipação pode haver nisso?

O próprio Manifesto Comunista de 1848 não foi escrito por um intelectual financiado por um indutrial?! E as revoluções socialistas, que instaruraram não mais que ditadores, foram realmente lideradas pela massa? Alguém acreidta que o Lula AINDA é um "operário"?!

Acho que acabamos criando a visão idealizada e romântica de um operário, mas quais os reais avanços de uma cosciência política? As massa não está justamente mais interessada na cachça barata do FDS e as fantasias com a Juliana Paes?

Os setores industriais e agro-industriais já suplantados hoje em número pelo setor de serviços não tenderão a ter mão de obra altamente treinada ao lado da maquinização cada vez mais frenética? Queremos acreditar que
amanhã será melhor e uma hipotética vitória dos oprimidos sobre o capital. Fazemos nossa parte. Mas quais são os verdadeiros rumos que o mundo está tomando? O "proletariado" é o verdadeiro messias? Não chegou a hora de abandonar velhos dogmas e dizer mais francamente: Pequenos- Burgueses de todo o mundo, uni-vos! E deixar o analfabetismo político é necessariamente acreditar que surja uma revoluçao capaza de cessar da noite pro dia um oceano de milenares contradições? Ou é uma luta constante que jamais cesará em busca de mudanças reais,sóbrias e possíveis?!

"Tantas perguntas"

Anônimo disse...

Olá, sou professor de História, e gostei muito do texto, em termos formais muito bem escrito...

Mas se me permite uma opinião sincera, hoje quando procuramos fazer uma história que não fale somente de Napoleões e Ramsés noto a velha idéia catedrática marxista de se falar nas classes oprimidas e do resgate da cultura popular. Mas não somos sempre nós, uma elite cultural; independentemente de nossa origem, a analisar e intepretar e tomar a palavra por esses trabalhadores? Que emancipação pode haver nisso?

O próprio Manifesto Comunista de 1848 não foi escrito por um intelectual financiado por um indutrial?! E as revoluções socialistas, que instauraram não mais que ditadores, foram realmente lideradas pela massa? Alguém acreidta que o Lula AINDA é um "operário"?!

Fugimos dos discursos prontos e direitistas de Vejas e Épocas mas acho que acabamos criando a visão idealizada e romântica de um operário, mas quais os reais avanços de uma cosciência política? As massa não está justamente mais interessada na cachça barata do FDS e as fantasias com a Juliana Paes?

Os setores industriais e agro-industriais já suplantados hoje em número pelo setor de serviços não tenderão a ter mão de obra altamente treinada ao lado da maquinização cada vez mais frenética? Queremos acreditar que
amanhã será melhor e uma hipotética vitória dos oprimidos sobre o capital e que nós estamos fazendo nossa parte? Mas quais são os verdadeiros rumos que o mundo está tomando? O "proletariado" é o verdadeiro messias? Não chegou a hora de abandonar velhos dogmas e dizer mais francamente: Pequenos- Burgueses de todo o mundo, uni-vos! E deixar o analfabetismo político é necessariamente acreditar que surja uma revolução capaz de cessar da noite pro dia um oceano de milenares contradições? Ou é uma luta constante que jamais cesará em busca de mudanças reais,sóbrias e possíveis?!

"Tantas perguntas"