quarta-feira, 14 de julho de 2010

Resposta ao Programa Racial do Mário Maestri


Lembro como, há coisa de 20 anos, foi festejada a aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente. Diziam que era o mais avançado instrumento de defesa da infância e adolescência no mundo. E foi observando a situação das crianças e adolescentes da classe trabalhadora que eu entendi que não podia esperar nada de estatuto nenhum desse Estado burguês. Por isso, não me empolguei nem um pouco, nem com o processo e, muito menos, com a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial. O único caminho que enxergo para a derrota do racismo é a luta do povo preto organizado contra o racismo, sim, mas, necessariamente, combinada com a luta pela derrubada da sociedade de classes.

Nem tudo são flores, mas também nem tudo são espinhos. Como o tal estatuto é bem maior do que a questão das cotas, a discussão sobre as relações raciais no Brasil está pautada com bem mais veemência. É nessas ocasiões que muito mais pessoas estão mais aptas a ouvir/ler e falar/escrever.

Uma das pessoas que se pronunciaram sobre o assunto, nos últimos dias, foi o historiador Mário Maestri, em entrevista para o Correio da Cidadania. E esse pequeno texto não é um diálogo apenas com tal entrevista, mas sim, com uma corrente de pensamento que enxerga nas lutas pontuais do povo preto, um freio na luta de classes.

Todo ano quando chega 20 de novembro, somos devidamente informados de que trabalhadores brancos ganham mais que trabalhadores pretos exercendo a merma função, e que essa diferença é ainda maior quando se compara o salário do homem branco com o da mulher preta; nossa presença é bem maior nos cargos com menor remuneração; nós pretos somos maioria entre os analfabetos e na massa carcerária; somos minoria nas universidades; segundo o sociólogo Ignácio Cano, somos 70,2% dos assassinados pela polícia... Então, é importante sublinhar que classe trabalhadora não é tudo uma coisa só.

Na entrevista Maestri faz distinção entre “luta anti-racismo” e “luta pela igualdade racial”. Sobre a primeira, ele diz ser uma luta progressista, revolucionária. A ultima, ele classifica como conservadora e “parte das estratégias do capital contra o mundo do trabalho e seu programa”.

Essa é uma discussão na qual eu não quero entrar no momento. Pra mim o importante é que no seu rol de bandeiras conservadoras ele coloca as nossas lutas reparatórias. Na minha opinião essa é mais uma demonstração da enorme dificuldade que a esquerda tem de entender como táticas, as lutas específicas.

Perguntado sobre a retirada do quesito “raça” do formulário de atendimento do SUS, no maldito estatuto, Mario Maestri responde:

É enrolação estatística dizer que negros, por serem negros, são mais desfavorecidos que brancos, por serem brancos, por exemplo, no relativo à saúde. Comparemos os engenheiros negros e os pedreiros brancos. Nesse caso, a saúde dos brancos é certamente pior do que a dos negros. E se cotejamos a saúde dos médicos brancos à dos médicos negros, certamente ela será, no geral, idêntica!

Mais abaixo ele admite a desigualdade na distribuição de pretos e brancos nas profissões mais bem remuneradas. Porém, negando que isso seja uma questão racial, mas sim, tão somente uma questão social, ele não tenta explicar qual fenômeno social é esse que faz de nós maioria entre os pedreiros e minoria entre os médicos e engenheiros.

Outro equivoco é afirmar que cotistas abandonam a luta “no aqui e no agora, do ensino universal, gratuito e de qualidade”. Só abandona uma luta quem já esteve nela. E quem garante ao Maestri que esses cotistas estavam engajados em alguma luta mais ampla antes de ingressarem na universidade? Eu afirmo que não, a grande maioria, não. Não estavam antes e nem estarão depois, se essa esquerda continuar abdicando do trabalho de base e pregando contra as cotas.

A maioria dos trabalhadores pretos não tem noção do que seja capital, muito menos da sua relação com o racismo. E a relação capital-racismo também é ignorada por boa parte da esquerda (que às vezes chega a ponto de chamar nossa luta de transversai e culturalista). O que fragmenta a luta da classe trabalhadora não é a militância nas questões raciais, mas sim a ignorância dessa relação, pois se sabemos que o capitalismo se fortalece, também, do racismo, combater um, deixando o outro intacto, é esmurrar ponta de faca.

Então, o problema maior se esconde no fato de que quem entende essa relação não está nas bases fazendo a disputa das consciências com o Movimento Negro burguês. E é no minuto seguinte que aparece algum intelectual da esquerda atacando a política de cotas, que surge um militante do Movimento Negro burguês dizendo a outros pretos e pretas:

“Viu? A esquerda é racista”.

Na era do Sim, Nós Podemos de Obama, em que a ilusão da mobilidade social ganha contornos mais fortes de realidade, o discurso contra algo que pareça ser o caminho que leva ao empoderamento (o saber, seja ele popular ou acadêmico, empodera), se torna a senha que identifica o inimigo. Daí o interlocutor/a responde: “Vi sim. A esquerda é racista mermu”.

O preto ou a preta que não sabe o que é “luta de classes” sabe muito bem o que é ser discriminado pela suas características físicas, que são uma herança africana. E é assim que nasce mais um reacionário no seio da classe trabalhadora. Nós, pretos militantes comunistas, de base, sabemos a medida exata do desserviço que causa a negligencia da esquerda para com as questões raciais, e o combate de parte dessa esquerda às políticas reparatórias. Sem contar que o contato mais íntimo da galera das cotas com um movimento estudantil classista gera contradições que poderão converter as bandeiras específicas em lutas por transformações mais radicais. Negar essa possibilidade é negar a dialética.

A esquerda, por décadas abriu mão de discutir e agir, com profundidade, sobre segurança pública. E hoje, surpresa, não está sabendo o que fazer vendo a principal vítima da repressão do Estado, a favela, aplaudir a presença da polícia nessas comunidades. A ausência da esquerda nesses espaços abriu brecha pras ONGs se instalarem e, despolitizando a questão, ficarem repetindo que o problema do favelado era que “o único órgão do Estado a subir na favela é a polícia”. Mas e agora que junto com esse aparelho racista de repressão político-social e proteção da propriedade privada está subindo a creche, o esporte, a inclusão digital etc? E agora que um dos programas de TV de maior audiência nas favelas é justamente aquele que comemora cada pobre assassinado pela policia (outrora reconhecida inimiga de 11 em cada 10 favelados)?

Ou a esquerda faz, urgente, essa autocrítica e assume a responsa de discutir e atuar sobre as questões raciais - não deixando a direita se apropriar do assunto - ou estará condenada a ficar repetindo erros que nos deixarão cada vez mais em maior desvantagem na correlação de forças na luta pela superação da sociedade de classes.

A propósito: Entre 182 cotistas do curso de Serviço Social da Uerj, no mínimo uma estudante, em seu pouco tempo de atividade política conta participação em:

Comissão Organizadora do Encontro Local de Estudantes de Serviço Social (ELESS); Ato/festa e ocupação do Diretório Central dos Estudantes (DCE) com um apitaço que desceu do nono andar até o primeiro fazendo o maior barulho e gritando palavras de ordem no megafone para cobrar deles que deixassem de pelegagem e que abraçassem a causa dos estudantes e não do reitor e exigir a ocupação todos espaços da universidade por todos e não só pelos cursos de "elite" ligados ao reitor; mobilização entre alunos, docente e administrativo para discutir e criar meios de barrar a minuta do HUPE (que dá brexa para a privatização do hospital universitário) do reitor; Jornada de lutas da Via Campesina, que derrubou pés de cana no norte fluminense, para denunciar o trabalho escravo naqueles canaviais; construção e coordenação de atividades de formação política; atividades de agitação e propaganda etc.


Nesse caso, ela que é moradora da Baixada Fluminense, antes de entrar pra faculdade, passou por um trabalho político que o Coletivo de Hip Hop LUTARMADA realiza em algumas favelas e bairros da periferia do Rio de Janeiro, e por um pré-vsestibular comunitário. Talvez ela não fosse exceção se a esquerda fosse mais atuante pra além dos muros dos campus universitários, escritórios, gabinetes e avenidas do centro da cidade.

Cada vez mais vermelho, sem deixar de ser preto

Gas-PA

domingo, 9 de maio de 2010

Ervas daninhas e/ou rizoma? Tocando fogo pela cidade...

por Pâmella Passos (OICult/IFRJ)

Um pouco de possível, senão eu sufoco.
Deleuze

Atendendo aos suplícios deleuzeanos, aí está o Rizoma, versão carioca. Jovens cheios de disposição e irreverência que fazem dos mais divesos espaços, campos de intervenção. A “fama” veio com o ótimo vídeo “Enchente de verdade”, porém, antes disto eles já desestabilizavam as ruas da cidade,afetando de forma inusitada os passantes entorpecidos pela aceleração da contemporaneidade.
O enfrentamento à ordem estabelecida: seja midiática, social, cultural entre outras, é produzido de diversas maneiras, e nisso eles, integrantes do Rizoma, são criativos. Bailam no entre, embrenhando forças e formas num emaranhado de potência e resistência.


“Acreditar no mundo significa principalmente suscitar acontecimentos, mesmo pequenos, que escapem ao controle, ou engendrar novos espaços-tempos, mesmo de superfícies ou volumes reduzidos. (...) É ao nível de cada tentativa que se avaliam a capacidade de resistência ou, ao contrário, a submissão a um controle. Necessita-se ao mesmo tempo de criação e povo.” (Deleuze, Conversações: 1992)

Sensíveis às linhas de fuga de nosso cotidiano, os “rizomáticos” praticantes de esportes radicais e circenses, estão contagiando, afetando uma sociedade desumanizada pela brutalidade do dia a dia. Seu impacto é feito erva daninha, espraia-se sem ordem ou planejamento prévio. É o que se consolida exatamente por não ter uma estrutura única.
Nós, jovens de hoje, estamos encontrando/inventando novas formas de resistência e manifestação, e a internet assume um papel cada vez mais importante neste processo. Logo, não se pode incorrer no erro saudosista de comparar os jovens de hoje com a geração 1968, ou mesmo com os “caras pintadas”, somos apenas a nossa geração, filhos do nosso tempo, experimentando ser jovem nesses tempos tão volúveis. Por isso

Eu acredito é na rapaziada
Que segue em frente e segura o rojão
Eu ponho fé é na fé da moçada
Que não foge da fera e enfrenta o leão
Gonzaguinha
Blog- http://canalrizoma.blogspot.com
Enchente de verdade- http://www.youtube.com/watch?v=PeduZpj_Zsc
O Dia da Independência- http://www.youtube.com/watch?v=kAc66uyRWP8

domingo, 25 de abril de 2010

As muitas faces de uma cidade! Um documentário, muitas vidas e resistências cada vez mais possíveis


por Pâmella Passos (OICult/IFRJ)



(...) o crescimento do ciberespaço resulta de um movimento internacional de jovens ávidos para experimentar, coletivamente, formas de comunicação diferentes daquelas que as mídias clássicas nos propõem. (...) estamos vivendo a abertura de um novo espaço de comunicação, e cabe apenas a nós explorar as potencialidades mais positivas deste espaço nos planos econômico, político, cultural e humano. (Pierre Lévy, 1999:11)

Privilegiada por assistir ao documentário “As muitas faces de uma cidade” antes de seu lançamento oficial e por ter a oportunidade de discutir com seus diretores e produtores, Mano Zeu e Danilo George, voltei ao Rio de Janeiro sedenta para escrever e coletivizar o que vi, jovens que, com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, estão resistindo e fazendo a diferença. No entanto, o impacto do retorno ao Rio pós-enchente, fez-me paralisar. As ruas entupidas de descaso, a TV transbordando insensibilidade ao explorar a dor de tantos que recorrentemente são esquecidos, me fez pensar: quantos morros desabarão até que percebermos a concentração de renda e fundiária em nosso país?

Passada a paralisia, destaco a inovação e coragem do documentário que descreve brilhantemente as contradições de uma cidade como Foz do Iguaçu, de tantas belezas naturais, que irradia energia para grande parte do território nacional, sendo ao mesmo tempo a cidade que mais morrem jovens. Rio, São Paulo, Vitória, Fortaleza, e tantas outras capitais sentir-se-iam contempladas e identificadas ao assistir esse curta, pois a película apresenta modelos de cidades que não são para todos, ou ainda, as diferentes formas de (sobre)viver na cidade. Nessas muitas faces das tão variadas cidades, encontramos jovens que arrumam seu trampo ou bico, que se divertem e que reinventam a vida nesta terra em que o Estado faz viver e deixa morrer.

A demanda do capital em ampliar seu mercado desdobra-se na redução dos preços unitários, possibilitando que novos segmentos tenham acesso a tecnologias antes restritas, estamos na fase do turboconsumo. Tal cenário nos permite pensar as possibilidades de alteração do status quo a partir dos frutos do processo de globalização. São os usos e apropriações dos meios.

Os jovens de Foz do Iguaçu exploraram estes novos caminhos, correndo os mesmo ou talvez piores riscos do que aqueles que desbravaram os mares no século XV, porém o objetivo é bem distinto. O processo é de emancipação, denúncia, criação e arte. As músicas, as cenas, o roteiro: é a cultura popular apropriando-se das novas tecnologias. Seus idealizadores, também passaram pelo curso de Agentes Culturais populares, potencializando todo o talento que possuíam. As favelas e periferias desse país aprendem a dominar as linguagens em circulação para assim falar de sua realidade a partir de seu ponto de vista.


Mas há também — e felizmente — a possibilidade, cada vez mais freqüente, de uma revanche da cultura popular sobre a cultura de massa, quando, por exemplo, ela se difunde mediante o uso dos instrumentos que, na origem, são próprios da cultura de massas. (Milton Santos,2006:144)

Parabéns aos que construíram, acreditaram e apoiaram esta iniciativa. Aos familiares e amigos dos produtores, força e convicção para saber que as retaliações virão, mas “unidos seremos sempre mais”. Estamos juntos lutando pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

POESIA FAVELA

POESIA FAVELA

Favela que escreve

Favela que lê

Favela que canta

Favela que fala

Favela que traça

Favela que inspira

Convidamos a quem se interessa em criar, escrever ou falar sobre a favela em forma de poesia e em todas as formas que as artes da palavra tomaram (em misturas com a música, com as artes visuais, a videoarte, o teatro) a organizar um encontro-ocupação da UERJ a ser realizado no mês de agosto.

Vamos pensar esse evento juntos!

REUNIÃO NO DIA 29 DE ABRIL NA CASA DE CULTURA LAURINDA SANTOS LOBO (RUA MONTE ALEGRE, 306 - SANTA TERESA) - ÀS 17:00

Iniciativa:

Profs. Adriana Facina e Victor Hugo Pereira

Coletivo RAP / LerUERJ / Curso de Formação de Agentes Culturais Populares /Observatório da Indústria Cultural (OICult)


POESIA FAVELA - ENCONTRO-OCUPAÇÃO NA UERJ (release)

Convidamos a quem se interessa em criar, escrever ou falar sobre a favela em forma de poesia e em todas as formas que as artes da palavra tomaram (em misturas com a música, com as artes visuais, a videoarte, o teatro) a organizar um encontro-ocupação da UERJ a ser realizado no mês de agosto. Este encontro é fruto das atividades de integrantes do Coletivo RAP (Reflexão, Ação e Política), em especial da Profa. Adriana Facina (UFF) e do Prof. Victor Hugo Adler Pereira, e tem o apoio do Programa de Extensão LerUERJ e do Curso de Formação de Agentes Culturais Populares.

O coletivo RAP vem realizando pesquisa-ação sobre os mecanismos que cercam a produção cultural no país; em especial, a participação do Estado e os mecanismos do mercado envolvidos nesta. Este coletivo é formado por professor@s e pesquisador@s de diferentes universidades cariocas, nas áreas de música, história, letras e comunicação, que atuam também em projetos de extensão junto à comunidade.

A proposta de reunir pessoas ligadas a diferentes manifestações culturais com a palavra surgiu da constatação de que os estudantes e até mesmo os professores universitários dissociam suas práticas culturais do que estudam e ensinam. Um problema que o educador Paulo Freire já havia examinado sob diferentes ângulos, ao discutir o que chamava de “educação bancária”, constituída de uma contabilidade de rendimento e concessão de títulos. Além disso, em áreas como os estudos de Letras, esse tipo de “educação” implica em não se levar em conta a produção que não seja consagrada pelas tradições da crítica, da Academia de Letras, que exprimem, sobretudo, o gosto e os interesses de uma elite da sociedade, ou por poderosos “lobbies” universitários ou de grandes editoras. Os estudantes são levados a ver com desconfiança ou desinteresse qualquer manifestação que não estampe alguns selos de competência fornecidos por essas instâncias. E não costumam pensar criticamente no fato de elogiarem obras e autores que eles mesmos reconhecem não ter muito a dizer sobre suas experiências como cidadãos ou sobre suas paixões, interesses cotidianos, aspirações...

Procurando enfrentar essas contradições, estamos organizando pesquisa sobre as referências culturais e a formação dos estudantes de Letras da UERJ, assim como pensamos em colocar a comunidade universitária em contato com a cultura produzida nesse espaço estigmatizado e frequentemente alijado das preocupações e do interesse em conhecer da universidade.

Na organização do evento, em vez de pesquisar as manifestações e selecionar as que pretenderíamos priorizar para o contato com o público universitário, decidimos chamar quem fala, escreve sobre a favela e tem na palavra um instrumento de expressão para esse contato. Além do mais, pretendemos organizar o evento, junto a esses criadores e àqueles que os divulgam ou acompanham criticamente suas atividades, discutindo o modo com que vai se realizar esse contato, o espaço propício para trocas, e evitando nos ater à mera “exposição” do que se faz “fora” da universidade, ignorando os diferentes elos que a vinculam às classes populares: seja por sua responsabilidade e dívida social; seja pela composição social de seu corpo docente, discente e de funcionários, que inclui muitos favelados e ex-favelados. E estes muitas vezes não encontram na universidade espaço para compartilhar ou discutir suas experiências ou os pontos de vista oriundos de um conhecimento mais próximo desse espaço da cidade.

- Propostas do encontro-ocupação POESIA FAVELA:

Promover um encontro entre aqueles que estudam, trabalham (como professores, pesquisadores ou funcionários) e aqueles que freqüentam a Universidade por outros motivos com quem produz cultura sobre e da favela. O encontro pressupõe: trocas de experiências, contato com o trabalho dos criadores, discussões, convívio.

Efetivar uma ocupação de espaços da universidade por quem procura desenvolver formas de cultura comprometidas com a favela, falando dentro dela ou sobre ela, mas quase sempre com limitação a um circuito restrito. Ocupação de espaços públicos, de uma universidade pública. Espaços que, no entanto costumam se restringir a receber manifestações, criadores e críticos consagrados pela cultura acadêmica.

- Algumas das contribuições para a universidade:

Alargar os horizontes, destruir preconceitos, despertar a curiosidade, promover o respeito e o interesse em estudar e divulgar a produção cultural relacionada e comprometida com a favela.

Formar profissionais (por exemplo, professores, jornalistas...) que estejam atentos ao fato de que a produção cultural se dá em diferentes quadrantes e espaços da sociedade, enriquecendo as possibilidades e perspectivas de compreensão de diferentes aspectos da vida que merecem tanta atenção e respeito quanto os saberes oficialmente consagrados pela escola e pela universidade.

Colocar em questão as concepções dominantes do que é arte e cultura, inclusive as concepções e padrões que norteiam a definição do que seja literatura.

- Contribuições previsíveis para os produtores de cultura:

Aumentar o circuito disponível para sua produção. Expor seu trabalho à avaliação e discussão num local em que se concentra a produção e avaliação da cultura oficial. Estabelecer elos com quem cuida do ensino e da difusão da cultura. Estabelecer trocas com a comunidade universitária.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Debate sobre o documentário As muitas faces de uma cidade, UNIOSTE, Foz do Iguaçu, 13/04/2010

por Adriana Facina (professora do Departamento de História da UFF)

Eu queria agradecer ao convite dos meus manos, diretores do documentário As muitas faces de uma cidade, com quem tenho aprendido tanto e vivido tantas experiências significativas, como as do Curso de Formação de Agentes Culturais Populares e do Festival Cultural Fala Favela, ambos realizados na UFF. Acho o Mano Zeu um dos artistas mais talentosos que conheço, mais um daqueles poetas primorosos que surgem nos becos e vielas das periferias brasileiras. Em Danilo Georges percebo o brilho de quem encontrou uma função para o ofício do historiador que me faz lembrar Marc Bloch, o historiador ativista que morreu combatendo o fascismo e que acreditava que a missão da História era compreender o passado para modificar o presente.

Quando vi o documentário pela primeira vez na semana passada, na cópia que eles me enviaram pelo correio, eu estava sem luz em casa, ilhada, mas ainda sem saber exatamente o que havia acontecido em minha cidade, Niterói. A bateria do computador acabou antes do fim do filme e tive de esperar até o dia seguinte para terminar de assisti-lo. Quando a luz voltou, enquanto eu ouvia as notícias sobre os mortos e desabrigados na televisão, via na tela do computador o trecho em que eram mostradas as enchentes e as pessoas que perdiam tudo nas periferias de Foz do Iguaçu. As mesmas histórias em cenários diferentes. Um desespero me invadiu a princípio, um sentimento de revolta impotente, uma raiva. Mas, após desespero, me veio uma ponta de esperança de que essas semelhanças possam ser a raiz para a construção de um novo mundo a ser erguido pelos oprimidos, pelos pobres, pretos, favelados, com sua força de sempre resistir e reconstruir, sua cultura, sua fé na vida. Aliás, se tem uma coisa que é tipicamente favelada é a fé na vida, que vem daquela certeza que se adquire quando se sobrevive a um sofrimento muito grande: eu sobrevivo, "já passei por quase tudo nessa vida", como diria Zeca Pagodinho e, por isso, não tenho medo de "deixar a vida me levar".

No Rio, a reação imediata das autoridades públicas foi culpabilizar os pobres. Usando a desgraça alheia para impor a agenda das remoções almejadas pela especulação imobiliária, o prefeito Eduardo Paes lançou decreto permitindo o uso de força policial para remover moradores de áreas de risco, o que abrange quase toda a cidade. Anunciou ainda a remoção imediata de uma das favelas mais tradicionais da cidade, o Morro dos Prazeres, localizado em região de grande valor imobiliário, e de mais uma dezena de outras a curto prazo. O governador Sérgio Cabral, o mesmo que acusou as mães da favela da Rocinha de serem fábricas de marginais, disse que as pessoas tem de se convencer a não construir moradias nas encostas e ainda culpou aqueles que foram contra os muros que ele mandou erguer para cercar as favelas e impedir sua expansão. Na minha cidade, onde até o momento foram encontrados mais de 150 corpos e há milhares de desabrigados, o prefeito e seu secretário de obras, fiéis escudeiros de uma especulação imobiliária irrefreada que há anos vem depredando a cidade, também apontaram seus dedos em direção daqueles que morreram ou perderam tudo: suas casas, seus documentos, seus entes queridos, sua história.

Talvez o impacto dessa reação daqueles que deveriam ser os primeiros a demonstrarem sua solidariedade às vítimas seja tão profundo e de longo prazo quanto as mortes e toda a devastação que suas sucessivas administrações causaram. Isso porque suas declarações explicitaram e legitimaram algo que vinha se impondo na surdina e sem alarde e, agora, com a máscara de um cinismo que há muito não se via: a imposição de um modelo de cidade que não considera a favela como território cidadão. Mal a ser extirpado ou empurrado para fora do mapa das áreas interessantes para a especulação imobiliária, a favela volta a ser alvo das antigas políticas de remoção que desconsideram algo que o documentário afirma, bem como a cultura que brota desses territórios: Favela é cidade!

Como diz a música do Rappa, o Rio de Janeiro todo é uma favela. Podemos dizer que o Brasil todo é uma favela e, em breve tempo, na visão de Mike Davis, autor do livro Planeta Favela, a maior parte da população mundial será formada por favelados.

Além de um crime contra os direitos humanos, um absurdo constitucional, um abuso de poder político e econômico, a remoção é também um atentado cultural. Como o documentário prova, as favelas e perferias são, e não é de hoje, os locais de onde surgem manifestações culturais potentes e que traduzem na forma de arte experiências coletivas de vida, de resistência, de formas de organização social, de valores como a solidariedade (que se expressa, por ex., nos mutirões. Agora mesmo na tragédia, os bombeiros reconhecem que a atuação dos moradores na remoção das vítimas dos deslizamentos de terra foi fundamental). Da favela nasce o samba, o hip hop, o funk, o grafite, o reggae, o break. Na favela se abrigou o jongo, bem como todos os batuques negros perseguidos secularmente e que assim chegaram ao século XXI. As favelas pulsam, fervilham, cheias de vida gerada por aqueles que vivem todo o tempo sob ameaça: seja da polícia, do descaso dos governantes, de políticas públicas que vêm essas áreas como laboratórios para o urbanismo, para a segurança pública etc. Favela é cultura!

Por isso, considero que uma das partes mais importantes do documentário é justamente a que fala da cultura da favela. A violência, as tragédias, o sofrimento são avidamente consumidos pela mídia corporativa e pela indústria cultural para alimentar o voyerismo das elites e das camadas médias e geralmente são apresentados de modo descontextualizado, estetizado e naturalizado. Esses temas não devem desaparecer do mapa e a produção cultural popular, periférica tem encontrado diversas maneiras de representá-los de modo alternativo, mais contundente, politizando a denúncia das condições de vida dos debaixo. Mas é urgente também tornar visíveis a cultura e a sociabilidade própria das favelas e das periferias e defender que a cidade só tem a ganhar ao assumir esse lado B como sua parte integrante. Quanto mais guetificada a periferia, maior o medo. Quanto maior o medo, maior a barbárie. Quanto maior a bábarie, maior a violência. E mais medo.

O que seria do Rio sem suas favelas? Onde nasceram as escolas de samba? Os craques do futebol? Os artistas populares? A nossa linguagem cotidiana, tão urbana e cheia de gírias? Nasceu lá onde a chapa é quente, o papo é reto, demorô já é, tá ligado?

O que seria o Rio sem a Barra da Tijuca? Ainda seria o Rio, pois aquele local, arquitetado, construído, gerido, depredado sob a batuta da especulação imobiliária, da mercantilização do território urbano é um deserto cultural. Não tem esquinas, nem sociabilidade em locais públicos, sendo os inúmeros shoppings o centro de sua vida social, vida privatizada nas "grades do condomínio que são pra trazer proteção, mas que também trazem a dúvida se é você quem está nessa prisão". Compare com uma das maiores favelas vizinhas ao bairro, a Cidade de Deus, berço do funk, do hip hop carioca, de exímios bboys, de blocos carnavalescos e escolas de samba, de festejos e muita arte, e também de artes de viver e sobreviver.

E é toda essa riqueza que está ameaçada pela lógica cotidiana do extermínio e também pelas propostas de remoções.

Espero que, na contramão do Rio, onde os governantes, incitados como cães raivosos pela mídia burguesa, hoje se voltam violentamente contra o povo favelado e buscam demitir as favelas da sua função de criadoras de uma cultura urbana, Foz do Iguaçu possa encontrar o caminho para a periferia e se reconstruir como um modelo feliz de cidade. Que parem o assassinato de jovens! Que subam as pipas no céu das favelas! No Rio, é só nelas que as crianças ainda tem a liberdade de soltar pipas.

Obrigada e parabéns, meus Manos queridos. Que vocês se aprimorem cada vez mais nas linguagens artísticas, que sejam criativos, que expressem o que se passa em seus corações e mentes,que construam caminhos para as vozes da periferias possam soar alto nos dessa gente que está surda e insensível. Nossa indignação agradece!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Revista Vírus Planetário

Por Adriana Facina

Olá!

Venho aqui divulgar uma iniciativa de estudantes universitários amigos meus (uma inclusive é orientada por mim em pesquisa).

Trata-se da revista Vírus Planetário, uma interessante publicação da esquerda que conta com o humor e outros elementos para disputar com a mídia hegemônica a opinião das pessoas. Como eles mesmo dizem: “jornalismo pela diferença, não pela desigualdade”.

Na 6ª edição recém-lançada (abaixo segue release), escrevo um artigo sobre o funk, tema majoritário da edição de novembro.

Clique aqui para conhecer a revista: www.virusplanetario.wordpress.com

Sexta edição online disponível!

“O funk não é modismo, é uma necessidade. É pra calar os gemidos que existem nessa cidade” . MC Bob Rum – Rap do Silva.

Depois de uma longa pausa causada por uma reestruturação, a Vírus Planetário, está de volta! E é em ritmo de funk, gênero tão criminalizado e reprimido pelas elites (logicamente, que se for a versão da Adriana Calcanhoto para a música dos MCs Claudinho e Buchecha, o funk está permitido), que a sexta edição vem com tudo. Na reportagem especial, conheça um pouco mais sobre o funk e a APAFunk (Associação dos Profissionais e Amigos do Funk) que luta pelos direitos dos trabalhadores do Funk (MCs, DJs etc). Esta edição é dedicada ao funk e à APAFunk pelo exemplo que a Associação está dando em relação à organização popular.

Não perca! Tudo isso e muito mais!

Para baixar, clique AQUI

A versão impressa está disponível na banca Cardeal Leme da PUC-Rio e na Xerox do Itamar (UFRJ - campus Praia Vermelha) a 1 real.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

1º Festival Cultural Fala Favela


O Curso de Formação de Agentes Culturais Populares, que está sendo desenvolvido na UFF/Niterói, formará no mês de Novembro sua primeira turma.

O Projeto estimula a formação e consolidação de redes que articulem as iniciativas culturais desenvolvidas nas favelas, com a intenção de criar condições para a produção e fruição de bens culturais em espaços populares, com base numa lógica inclusiva, respeitando a diversidade e pluralidade da cultura popular.

O objetivo é qualificar/capacitar 30 agentes culturais através do curso de formação, que combina momentos de estudo de teorias e troca de experiências práticas, com a perspectiva de contribuir na construção de alternativas de geração de emprego e renda para os moradores dos espaços populares;

Nesta etapa final os alunos irão realizar com os educandos do curso o festival “Fala Favela” na UFF para fomentar e divulgar as produções culturais das favelas, através de concursos, mostras, palestras, exposições, etc....

Contamos com a presença de todos!

Data: 19/11

Hora: à partir das 9:00 hs (manhã)

Local: UFF/Niterói - Campus Gragoatá (Praça São Domingos)

Entrada Franca