segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Era (mais) uma vez a criminalização da favela


por Adriana Facina (UFF/Observatório da Indústria Cultural)


Amigo, eu moro na favela, sim, senhor
Não tenho vergonha de lá viver
Nós somos pobres, mas também temos direito
De ser um povo satisfeito e sem sofrer


Moro num lugar maravilhoso
Onde todos têm coragem de lutar para vencer
Para vencer
Moro na favela agitada
Onde a rapaziada unida pra valer
Vem ver para crer
Vem vem
O ano todo, a vida aqui muda demais
Com a tristeza querendo atormentar
É criancinha precisando de atenção
A mãe sofrendo faz encrenca com o patrão
Aqui a gente sempre luta por melhor
Mas a sociedade leva a gente pra pior
Desempregado se acabando embriagado
Alguns se matam vendo a vida piorar
Sua mulher segura o filho em sua casa
Fazendo lista pra fazer seu funeral
O filho cresce analfabeto e sem infância
Ai, minha gente, quem trabalha e a criança
Alguns aceitam, outros ficam revoltados
E na cabeça o mal começa a rondar
Alguns amigos vendo ele se envolver
Chamam no conselho e eles aceitam com prazer
Banco de sangue na cidade a fila é grande
Só tem favelado querendo sangue doar
A humildade é nossa arma preferida
Nós temos pouco, mas queremos ajudar
Ainda digo que no morro e na favela
Só mora pobre, mas só mora sangue bom
Falando claro, a vida aqui é um barato
E todos nós que moramos somos irmãos


E quem dá respeito gosta de ser respeitado
Seja moreno, branco, preto ou mulato
Já não agüento por aí ser avistado mal
E peço, moço, deixa a gente na legal
Nós só queremos o direito de viver
Nós não pedimos ninguém para nascer
Enquanto rico vive bem acomodado
O pobre vive na favela esculachado
Se está na esquina conversando na moral
Quando eles chegam nos chamam de marginal
Acostumado com esse jeito de viver
Eu pergunto a Deus o que fizemos pra sofrer
Nesta vida, da desgraça eu acho graça
Dou gargalhada, mas não adianta nada
É tristeza e alegria ao mesmo tempo
Essa angústia aqui dentro eu vou vivendo
Tem gente que fala mal dos morros e das favelas
Porque não vem passar um dia em uma delas
Apesar desse problema no lugar,
Tenho certeza que um dia vai mudar

(trechos do Rap da Favela, de Naldinho e Renato)






Cheguei ao cinema acompanhada de minha filha de 13 anos. O cenário, uma daquelas salas multiplex de shoppings, bem grandes, que vendem pipocas e refrigerantes em tamanho família, ao estilo supersize dos irmãos do Norte. Preços muito salgados. Eu e ela pagamos ao todo 21 reais em plena terça-feira, e o cinema estava bem cheinho. O filme, Era uma vez, apresentado na mídia como um Romeu e Julieta contemporâneo, contando a história de amor entre uma menina do asfalto e um rapaz da favela.
O diretor, Breno Silveira, é o mesmo do sucesso de público Dois filhos de Francisco, filme que gostei muito. Achei sensível, bonito e, além de tudo, tinha as belas e populares músicas de Zezé de Camargo e Luciano, além de outras de violeiros tradicionais. Só esse fato já me deixava simpática ao Era uma vez. Mas, além disso, li também umas declarações interessantes do diretor, que dizia que as pessoas tinham que subir morros, conhecer as favelas e seguia com algo contra preconceitos e coisa e tal. Otimista, pensei: finalmente um filme comercial que falasse da favela de um modo menos preconceituoso e, quem sabe, até mesmo mais lírico.


Logo no início, quando vi nos créditos que Luciano Huck era co-produtor, confesso que meu otimismo diminuiu um pouco. Mas pensei: nada de prejulgamentos! Só porque o cara chamou o Capitão Nascimento pra resolver o rolo do seu Rolex não significa que o filme seja ruim ou reacionário. E vamos a ele.


Logo de início, Carlão, personagem do ótimo Rocco Pitanga, está pendurado num poste consertando alguma fiação e há um pequeno curto. Carlão diz: “com tanto gato aqui daqui a pouco isso tudo vai pegar fogo!”. Ponto para a Light! Será que a empresa que têm o monopólio do fornecimento de energia na cidade, cobrando taxas exorbitantes e prestando serviço de má qualidade é patrocinadora do filme? Ou o merchandising social foi gratuito mesmo? Ponto pra criminalização: favelado = ladrão de energia elétrica. Fato que, segundo as empresas, onera todos da “cidade”, que têm de pagar pela luz roubada.


Depois de uma sucessão de histórias terríveis, com criança assassinando criança, Carlão acaba preso e, revoltado, vira bandido. Dé, seu irmão mais novo, é o Romeu, protagonista do filme. Trabalhador de um quiosque na praia, se apaixona por Nina, sua Julieta, que mora num apartamento de luxo em frente ao mar.


Na primeira vez em que Nina sobe o morro para encontrar Dé, é cantada por bandidos portando fuzis e chega a um baile funk, onde é abordada de modo ameaçador por um sujeito mal encarado e com uma enorme cicatriz no rosto. Seu herói chega e a salva do perigo. O som é um “proibidão” em versão light, que depois vira um melody quando os protagonistas se beijam. A favela é apresentada como um ambiente ameaçador e vários estereótipos preconceituosos são reforçados, dando sentido ao medo da classe média em relação aos morros e à população favelada.


Enquanto o filme apresentava seu discurso, eu contradiscursava pra minha filha: “isso é um absurdo! Nunca uma cena dessas ocorreria num baile de favela. Lá, simplesmente, um homem não pode “chegar” assim numa mulher, ao contrário do que ocorre nas boates de playboys.”


Num determinado momento, Carlão vira dono do morro e a mocinha suspeita de seu namorado, briga com ele dizendo que aquilo não era certo. No meio da sua inacreditável resposta, misturando denúncia das desigualdades sociais e idéias sobre bondade e maldade nata entre pobres, ele solta a pérola: “o difícil é ser honesto”. Honesto: essa a grande qualidade de Dé. E também submisso, ordeiro. A ponto de responder sim ao pedido do seu sogro para que não levasse mais Nina na favela, pois não queria vê-la exposta à violência. Imagina isso! Nenhum favelado que conheço deixaria de responder a uma fala dessas com um desagravo!


Toda a representação da relação favela-asfalto se dá num tom sociológico, sem direito à fábula. O livro que aproxima as personagens principais não é Romeu e Julieta, ou qualquer outra história de amor, mas sim Cidade Partida. A ambientação lembra Cidade de Deus. Ficção mesmo só na hora em que Dé vai pedir empréstimo a uma financeira (mais merchandising) e ficamos sabendo que ele trabalha há 3 anos no quiosque com carteira assinada. Pensem quantos trabalhadores de quiosque nas praias possuem emprego de carteira assinada!


No mais, repetição de clichês, preconceitos, sociologismo raso, estética duvidosa, tudo a serviço da idéia de que não há saída. Se nem na arte é possível inventar finais felizes, como fazer para mudar uma realidade tão árida como a que vivemos? Na impossibilidade de sonhar, o melhor a fazer é baixar a cabeça e agradecer por estar vivo.


Com financiamento do BNDES e incentivos públicos, o que significa dizer bancado pelo dinheiro do povo, Era uma vez é meio que um Tropa de Elite do sensível. Assim como seu primo-irmão policialesco, condena as favelas a uma leitura sociologizante que, longe de questionar preconceitos e estereótipos, os legitima sob um discurso cuja forma é quase científica. Habitantes de uma cidade inexoravelmente partida, só restaria aos cariocas se refugiarem nos seus quadrados, reféns do medo cotidianamente regado pela grande imprensa e pela indústria cultural. Medo que, como diz Loïc Wacquant, virou artigo de consumo sob o capitalismo neoliberal, no qual a perspectiva do bem estar social vem sendo substituído por um estado penal, cuja política para a pobreza é o encarceramento em massa.


Como financiadora desses filmes, exijo ver nas telas a favela que trabalha, que ama, que se diverte, que sonha. Não quero a justificativa do conservadorismo sensível que naturaliza distâncias e desigualdades. Essa arte não me serve. Na qualidade de patrocinadora do cinema nacional, que vive dos impostos que pago, demando filmes prenhes de utopia, nos quais a realidade seja entendida como processo e não como aprisionamento estático do futuro.


Na saída, um consolo. A indignação da minha filha, que foi crescendo durante o filme, se expressando primeiramente com um “eu não acredito!”, quando ficou claro que a mocinha havia sido seqüestrada na favela pelo irmão bandido de seu namorado, até o comentário final: “mãe, que filme horrível, preconceituoso.” Decidida a não recomendar o filme para suas amigas, foi afirmativa: “prefiro Larajinha e Acerola”.

3 comentários:

Bosco Ferreira disse...

É o dinheiro público patrocinando a arte a serviço dos poderosos.

fernando pinheiro disse...

Gostei muito da sua análise do filme. Apesar de não ter visto o filme também tinha uma esperança de que a favela e os favelados não fossem retratados de forma pejorativa... pelo visto é mais um filme brasileiro da "nova safra" que não consgue superar esse ranço preconceituoso.

Fernando Pinheiro
fepessoal@yaho.com.br

Nada demais disse...

Não gosto da tentação enxergar sob a cortina da repetição do inconciente coletivo uma teoria conspiratória. Enfrentar esteriótipos demanda uma coragem e força absurdas. Até no bom 5x favela os esteriótipos aparecem, mas o discurso tem outro tom.