sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

A vingança do baiano




Em 1994, fiz com Miss Lilly, a pedido da agência DPZ, o livro São Paulo de Bar em Bar. Visitamos uma centena - um deles, o bar Ca­bral, nos elegantes Jardins. O dono, quando Miss Lilly perguntou sobre a clientela, rela­cionou alguns figurões e arrematou:


"Uma coisa eu digo: baiano aqui não entra."


Disse com aquele nojo que certos magnatas das classes dominantes devotam ao povo. Mas por que me lembrei disso? Ah, sim. Em outu­bro, numa esquina paulistana, um "correria" apontou revólver para o apresentador de tevê Luciano Huck e fugiu na moto levando-lhe o Rolex que, segundo as notas que li, vale uns cinco barracas na favela. Huck escreveu na Fo­lhona artigo que causou rebuliço, ao desabafar e cobrar ações das autoridades. Muitos o apoia­ram, e muitos fizeram troça, como dizer que Huck precisou ser assaltado para descobrir a desigualdade que grassa.


Na seqüência, a Folhona publicou artigo justo do escritor do Capão Redondo, o colega de hospíoio Ferréz, que resumiu: o correria levou o Rolex que vale várias casas no peda­ço em que ele mora, e Huck ficou com o bem maior, a vida - ou seja, concluiu Ferréz, todos saíram ganhando.


Mas o que tem o bar Cabral a ver com a história? O dono dele era Luciano Huck. Ima­gino então que algum baiano soube da histó­ria que narrei e veio cobrar um Rolex por "da­nos morais".

Mylton Severiano
Publicado originalmente na Revista Caros Amigos (ano XI número 128 novembro 2007, p.11)

17 comentários:

Observatório da Indústria Cultural disse...

Os habitantes de Fernando de Noronha, onde Huck tem uma pousada, conhecem bem esse falso bom mocismo do rapaz.
Excelente texto!
abs,
Adriana Facina

ventos ululantes disse...

É o ROLO DO ROLEX!

John Walker disse...

O Luciano Huck pode ser o que fôr. Mas dizer coisas como "ele mereceu ser assaltado", ou coisa que o valha, acho injustificável. Mesmo o que foi escrito por Ferréz, que ele deveria se contentar com o fato de ter saído com vida, e não reclamar do assalto; isso é conformismo. É como justificar a onda de violência de que somos vítimas. Huck está certo ao reclamar, afinal ele é um cidadão e foi vítima da violência. Não podemos pensar assumir uma postura complacente em relação ao crime. Se pensarmos assim, no mínimo estaremos assumindo uma atitude de conformismo para com os problemas do país. Essa idéia de que criminoso é herói da periferia não condiz de forma alguma com a realidade, assim como a idéia de que rico merece ser assaltado para compensar as mazelas da sociedade.
Enfim, discordo de muita coisa que foi escrita aí. Se julgarmos as pessoas por sua "riqueza" ou "pobreza", cairemos no mesmo erro de Huck ao falar dos "baianos". Não devemos nutrir preconceitos contra os "ricos" para compensar o preconceito sofrido pelos "pobres".

Anônimo disse...

Preconceito contra rico? trata-se de luta de classes, nada mais! só existe assalto pq existe injustiça social e quem produz isso é gente como Luciano Huck.

John Walker disse...

Isso não justifica violência gratuita. Se pensarmos assim daremos razão para aqueles que chamam socialistas de bárbaros. Luciano Huck é um cidadão que sofreu de violência, e portanto tem todo o direito de reclamar. É impossível dar razão ao assaltante. Podemos avaliar a situação, analisar os motivos do assaltante, para tentar encontrar saídas para os problemas da sociedade. Mas nada disso justifica uma defesa do assaltante ou um ataque ao Huck. Essa é uma forma superficial de pensar a questão, não chega ao amâgo da questão, não aponta solução alguma. Não vale a pena pensar assim, pelo menos não pra quem leva a Sociologia a sério, indo além de uma leitura superficial de Marx. Luta de classes passa longe de agressões como essa.

Leandro disse...

Essa visão do "John Walker" faz parte de um grupo elitizado e excludente como do Sr. Huck, que sem dúvida não remete a verdadeira visão social. É uma pena ter que ler comentários pifios como esse. Lamentável...
Leandro Gonçalves

Anônimo disse...

Ostente menos, siga as leis ambientais e se limpe do seu preconceito Huck, fica a dica.

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Helder

João Henrique disse...

Infelizmente tive o desprazer de ler esse texto. Não conheço o blog, então essa minha primeira impressão foi PÉSSIMA. Lamentável!

O texto não diz, mas deixa claro a intenção de criticar a VÍTIMA (veja só)!
Independente da moral da pessoa, ela não pode sofrer uma violência e ser julgado por sua conduta, ou PIOR, por sua classe social.

Em relação a análise jurídica, peço vênia para dizer novamente LAMENTÁVEL a colocação de que isso poderia ser uma cobrança de "dano moral".
São colocações infelizes como essa que banalizam o Direito.

Finalizo com a colocação do meu colega acima:
"Não devemos nutrir preconceitos contra os "ricos" para compensar o preconceito sofrido pelos "pobres"."

Evandro Lima disse...

Só faltou citar Maquiavel para justificar tamanha barbaridade descrita. Sejamos críticos, mas façamos com eloquência e objetividade. Não sou a favor do discurso da vitimização das classes menos favorecidas da mesma forma que não defendo o revanchismo contra os ricos. Isso passa muito distante de ser discurso de classe e beira a uma Sociologia superficial e sem propósito.

Anônimo disse...

Mas isso é uma babaquice das grandes, vir com papo de assalto devido as classes sociais....
Então porque um politico rouba sendo que eles tiveram de tudo ?

Anônimo disse...

Muito bonito os "defensores da justiça social" que sempre levantam essa bandeira que o bandido rouba porque é um pobre coitadinho e está se vingando dos ricos que o oprimem. Então o pobre, que mora na favela, mas é decente e honesto e trabalha pra ganhar seu sustento é o que? Um otário, né?

Anônimo disse...

Concordo! Só quem vive na favela e nas comunidades sabe o que passa. Queira viver sem ter onde morar, sem ter o que comer e depois venha opinar aqui. Essa elite me dá nojo.

Anônimo disse...

Mas a crítica não foi pra falar que o cara tava certo ao assaltar o Huck e nem que ele estava errado por reclamar. A crítica, ao meu ver, foi pelo fato do apresentador ser um babaca no melhor estilo 'Caco Antibes', que odeia pobre e preto, e que por isso o assalto de uma certa forma poderia ter servido pra ele se ligar que ele é um cidadão como qualquer outro fora desse mundinho da elite em que ele vive

Leandro Dias Moraes disse...

Mas o texto apoiou o assalto. Embora eu não sou fã do Luciano.

Anônimo disse...

Alguém comentou aí: "ele não pode ser julgado por sua classe social"... "Classe social" ou "classe econômica"? A nossa classe social é a brasileira, porém a econômica é muito heterogênea (ricaço, rico, médio-rico, médio, médio-pobre, pobre, paupérrimo e miserável)... Eis as classes econômicas distintas no Brasil, porém a classe social é uma só: brasileira (sul-americana ou latino-americana)! Simples assim! rss

Anônimo disse...

Luciano Huck só disse uma coisa sobre o assalto:
- Loucura, loucura, loucura!

Anônimo disse...

O pessoal aqui adora falar difícil, mas tem tremenda dificuldade em interpretar um texto, e em notar o sarcasmo com que determinadas coisas foram escritas.

Não houve apoio algum ao assalto. O que o escritor transmitiu foi a ideia de que o que gera o assalto é a própria forma grotesca com que os mais favorecidos economicamente tratam os pobres. Hoje você humilha um coitado na fila de um estabelecimento de que é dono, e amanhã ele lhe enfia um revólver na cara.

Luciano Huck é vítima sim, e eu me compadeço. Mas é vítima de uma luta de classes com a qual ele infelizmente contribui. Talvez, como disse um amigo aí em cima, depois desse episódio ele tenha sido capaz de perceber que barrar baiano é alimentar bandido.