terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Resistência civil: a instrumentalização clandestina para não ficar tão fora do mundo


Vivemos numa era em que pode-se produzir muita coisa sem sair de casa. Podemos ter acesso a informações do mundo inteiro através da internet, que nos dá a capacidade de estarmos interligados e conectados a diversos países, podendo nos comunicar, inclusive, instantaneamente com pessoas do outro lado do globo.Tudo isso sem sair de casa. O próprio serviço de telefonia, no Brasil, opera milagres, principalmente depois da privatização. Podemos falar com parentes e amigos que moram distante, em outro país, no Japão até, em tempo real. A TV a cabo, diferentemente do senso comum das programações das emissoras da TV aberta, proporciona uma gama bastante diversificada de canais para todos os gostos, com inúmeros programas dedicados à cultura, documentários, filmes de todos os tipos, inclusive europeus, que nos permitem fugir do idiota do Faustão num domingo chuvoso e preguiçoso. É, nos permitem...

No entanto, para ter todas essas opções, para fugir da banalidade, imbecilidade e “bundalização” da Rede Globo e das concorrentes, para ter uma boa internet que permita baixar filmes, documentários, entrevistas e músicas, ou seja, para estar bem equipado ( principalmente o pessoal que estuda e, muitas vezes necessita, de fato, desses serviços que estão para além de um simples luxo) é necessário algo corriqueiro: DINHEIRO. Tem que pagar para sair do senso comum. Estrutura custa dinheiro e quem não tem condições para isso fica para trás, em desvantagem.

Mas nem tudo está perdido. Existem meios de se conseguir certos serviços que nos são negados pela falta de capital. Em épocas de Tropa de Elite, podemos observar um tipo de acesso àquilo que sendo a princípio para poucos se torna de todos, socializado: a PIRATARIA. Tem que ser na base do extra-oficial, não dá pra se prejudicar pela falta de condições. Isso é INJUSTIÇA. Da mesma forma que é muito fácil usufruir dos mesmos privilégios de quem pode ter uma televisão de qualidade. É só fazer um gato, o famoso gato-net. Nas favelas cariocas é muito comum este tipo de socialização, com uma mensalidade popular: 20, 25 reais. Da mesma forma a internet banda larga. Uma mensalidade barata proporcionando ilegalmente - é óbvio - o serviço que deveria estar ao alcance de todos sem precisar passar pelo perigo da ilegalidade.

Se engana quem pensa que as vantagens destes produtos são as mesmas daquelas que são compradas de fato, assinadas oficialmente. Os canais da TV são limitados e a internet não tem a qualidade tão excepcional. Há as falhas naturais do que é clandestino, mas na lógica do “quebra-galho” característica dos que se viram, está valendo.

Percebemos, desta forma, um tipo específico de FALTA DE LIBERDADE. A liberdade de acesso à cultura e à informação. Com a precaridade gerada pela falta de condições e de estrutura, ficamos limitados e aprisionados ao que nos servem na programação normal, como é o caso dos telejornais vagabundos das emissoras da TV aberta cujo maior expoente, nesse sentido, é o Jornal Nacional, com seus pedaços de notícias, com um conteúdo ideológico bem definido e que sabemos muito bem qual é, além do abuso de termos que aturar aquele casal com jeito de família feliz. Sabemos, pois, que uma boa internet, por exemplo, para além do entretenimento, proporciona a liberdade para pesquisar e receber as informações do modo que nos convém, desde que se saiba, é claro, como se utilizar deste instrumento. Mais que isso, a internet é fundamental nos dias de hoje, em que ninguém mais se comunica através de cartas. É muito necessária para a vida do estudante. Assim, tenho uma opinião bem definida: viva o gato e a pirataria, como forma de protesto, adequação e libertação! Para quem não tem dinheiro é isso, ou se contente em permanecer fora do mundo.

Além do fato de se buscar ter aquilo que não é para todos, mas apenas reservado a uma elite intelectual, ou aos que tem um mínimo para se equipar e instrumentalizar, um outro fator positivo existe por trás destes meios ilícitos de se conseguir tais serviços. Uma espécie de socialização, de comunitarização desses meios de comunicação. Geralmente esses serviços são ofertados por pessoas que conseguem ter a assinatura e disponibilizam para os demais moradores da favela, a partir de uma central clandestina e improvisada. Com uma módica mensalidade, outros indivíduos podem ter acesso à programação, sendo bom para todos. É certo que quem é responsável pelo serviço-gato lucra com a situação, mas em contrapartida os demais também se beneficiam pelo fato de conseguir o que só seria possível através de um pagamento caro e IMPOSSÌVEL para a realidade. 20, 25 reais, é barato? Pode ser, mas já é suficiente para ter peso na composição dos gastos do orçamento familiar. Não se trata de nenhuma “mamata”, é o que o pobre tem condição de pagar. Desta forma, através da malandragem, “uma mão lava a outra”. É preciso apenas não fechar acordo com pequenas máfias que se formam a partir disso, pois a lógica da exploração se mantém nesses casos.

Ausentando este fato, acho verdadeiramente que existe uma espécie de socialização na lógica do gato. Recordo-me de um caso ocorrido numa grande favela do subúrbio carioca: neste lugar as ruas são cheias de postes que, por sua vez, sustentam emaranhados de fios que se formam por causa dos gatos. Todo verão, em função da quantidade de força exigida devido ao uso generalizado de ar condicionado, costuma-se acabar a luz. A precarização se configura nos transformadores dos postes que não suportam tamanha carga. Os aparelhos de ar condicionado são ligados diretamente no poste da rua, para não contarem no relógio medidor de luz, sobrecarregando o sistema. Certa vez, acabando a luz por causa de uma sobrecarga, um calor infernal nas casas grudadas tirou o sono de todos. Vários moradores saíram de suas casas, já tarde – passava de meia noite - para tentar solucionar o problema imediatamente. O POVO queria voltar a dormir bem. O que fazer então? Foram chamar um homem que morava mais acima, que entendia de eletricidade e tinha uma espécie de vara específica para solucionar o problema. Ele foi acionado e a operação realizada com sucesso, para alegria geral. Toda vez é assim, a ajuda mútua em prol da continuidade do sistema paralelo. E se acontecer algum problema com o instrumento, uma “vaquinha” é feita para se concertar ou comprar outra. Todos ficam de sobreaviso já que a clandestinidade carrega consigo o peso da imperfeição, sendo necessários meios improvisados e disposição para não ficar “na mão” com a precaridade do serviço extra-oficial. Mas que assim seja. As empresas privadas de luz e telefone, por exemplo, nos fornecem seus serviços em troca de pagamentos caríssimos e injustos. Somos dependentes delas e por isso aprisionados. Façamos o boicote a elas, usufruamos SEM PAGAR de seu produto!


Pedro H. Nunes (UFF/Observatório da Indústria Cultural)

11 comentários:

Revista disse...

Olá Pedro!
Seu artigo está excelente e polêmico. Minha questão é sobre os limites nessa aposta de ir por dentro do sistema. Acho importante, mas temos de inventar nossos próprios meios de produzir e usufruir de cultura, lazer etc, não é?
beijo grande,
Adriana.

Pedro H. disse...

Sim, concordo.
Buscar o alterntivo é importante, de fato. Mas falo de coisas que acabam sendo necessárias, de maneira geral, na vida de todos. A televisão nem tanto. Mas um computador e uma internet hoje em dia é fundamental. Sem esses instrumentos não é possível acompanhar o andamento das coisas. O estudante então,nem se fala! Fica prejudicado e perde pela falta de possibilidades. Apesar de lutarmos em prol do alternativo, sempre acabamos nos deparando com as necessidades impostas pelo sistema. É aí que entra a importância da clandestinidade. Isso durante toda a vida, desde criança. O sujeito entra na escola mais não tem condições de ter um livro didático. Depois é o vestibular: sem dinheiro pra fazer um cursinho que o instrumentalize bem ( claro, na lógica conteudista, infelizmente), ele vai demorar para entrar na faculdade depois de passar alguns anos nos prés-comunitários, que de maneira geral são piores pela falta de infra-estrutura... e por aí vai... Não dá pra ficarmos inteiramente fora do sistema, mas concordo com a importância de se buscar meios alternativos e o mais importante: fazer com que eles ocupem espaços, incomodem.
Obrigado pelo comentário.
Beijo,
Pedro.

johann disse...

Falta de liberdade? Quer dizer que roubar produtos através de gato e pirataria é liberdade? Quem paga a conta dos gatos somos nós, pessoas de classe-média!

Injustiça o fato de certas pessoas não terem acesso à tecnologia? Talvez. Mas o mundo não é justo em si, a natureza não é justa, os animais não são justos. Acho correto que todos tenham acesso à tecnologia e informação, mas não com este discurso piegas que só enfatiza a condição de "coitadinhos" dos pobres, quando ninguém é coitadinho coisa nenhuma, nem ricos, nem pobres, nem remediados. Essa visão das classes pobres como vítimas é o que mais me afasta da esquerda, eu que nunca fui de direita, e nem sou.

Repito a mesma coisa que meus amigos esquerdistas fazem questão de ignorar: os impostos EXTORSIVOS que pagamos são mais do que suficientes para alfabetizar, dar cultura e acesso à tecnologia e informação. Os impostos brasileiros são dos mais caros do mundo, com ou sem CPMF, e tinham de retornar à população na forma de escolas, de hospitais, não do abjeto e humilhante Bolsa-Família, este absurdo populista. E apoiar gatos nas favelas é de uma irresponsabilidade atroz, pois sabe-se que estes "gatos" causam incêndios que vitimizam as próprias comunidades carentes. Será que o autor do texto sabe disso, ou preferiu ignorar?

Ninguém precisa de um Che Guebvara nem de um Robin Hood. A humanidade já passou desta fase embrionária. Vamos simplesmente exigir que os impostos caríssimos sejam utilizados para dar escola e moradia para a populacão, e aí terão dignidade e poderão pagar as próprias contas, sem Bolsa-Esmola, sem pirataria que além de ser rouba lesa os artistas e intelectuais, e sem "gato" para ter tevê a cabo, o que além de ser roubo, é perigoso para quem faz.

Lamento, mas este texto está das coisas mais deploráveis que já li na vida.

Thiago Ricardo disse...

Temos que seguir por ambos os caminhos, simultaneamente: exigir que as receitas das Prefeituras sejam utilizadas de forma clara e que isto permita o acesso de todos aos bens de consumo urbanos e culturais, e que mais pessoas também possam associar-se e poderem constituir-se em organizações e pequenas empresas produtoras daqueles bens de consumo e geradoras de trabalho (isso também deveria ser alvo de política pública!), de modo que seja viável a manutenção desta organização frente a outras, maiores e menores, sem que haja um liberalismo tal que as pessoas e as cnpjs sejam engolidas.
Como conseguir isso?
Penso que só o emprego do "gato", sem haja uma organização que permita às pessoas que se organizem de modo a construir um movimento politico de democratização da produção e do consumo dos bens culturais e urbanos, não estará livre da criminalização e violência. Penso que o "gato" e os movimentos de auto-afirmação e auto-gestão das próprias necessidades devam vir juntos.

Pedro H. disse...

Meu caro Johan,
Sei sim o quanto é problemático os emaranhados de fios que caracterizam os gatos nas janelas de suas casas. Não ignoro não. Você sabe?! EU SINTO NA PELE! Incêndio, sinceramente eu nunca vi, porque como eu disse no texto, as pessoas são "safas", não vão vacilçar a esse ponto, agora, EU TAMBÉM SINTO NA PELE o BOICOTE que as grandes organizações fazem com os que não tem condições de se inserirem na mesma lógica da classe média. O fato é simples, não tem grana? Vai ficar pra trás. Não vai ter acesso a mil coisas, que concordo sim, deveria ser incentivado pelo governo também, mas o governo FECHA com as grandes organizações e concordo, dá bolsa família como medida paliativa. Agora, por não considerar que o pobre não é coitado que acho o máximo essa lógica de se conseguir meios extra-oficiais para obter um mínimo de igualdade. Na minha opinião é uma forma de se utilizar de coisas do sitema furando o sistema. Isso é resistência! Tá no título do texto, você não entendeu? A classe média paga? Por que? Porque as grandes organizações são inexcrupulosas. O que não dá é pro pobre tirar quase a metade do seu salário pra pagar uma velox pro seu filho estudar e ficar um pouco mais próximo do patamar dos outros( pagar por ele e pela classe média). O que eu achei interessante no seu comentário Johan, é você dizer que a falta de acesso à tecnologia é injusto porque o mundo é injusto. E ainda não se considera um cara de direita. Isso é extrema direita!

Heyss disse...

Pedro, vc consegue ser realista com ser de direita. A esquerda sempre acha, automaticamente, que quem não concorda com os métodos ilegais e com o roubo é de direita. Mas não sou, não.

O que vc está defendendo é o roubo, o caos. Cada um deve lutar com condições justas. Nenhum país na história chegou a`lugar nenhum com este tipo de "política" demagoga e irresponsável. Não foi assim que países como Coréia, Alemanha, Argentina e outros saírem de crises ainda piores que a brasileira.

O problema do Brasil é a corrupção e a demagogia. Até parece que todos os que moram no morro são injustiçados. Até parece que os pobres só são pobres por causa dos maldosos ricos e da classe média. NEnhum pobre é mais responsável por sua própria situação de acordo com esta esquerda ridícula que parece acreditar em Papai Noel, em justiça eterna e numa sociedade boazinha e "fofa". Só falta acreditar em Fidel e Chávez.

Eu desisto de postar neste blog. Ninguém aqui quer dialogar, apneas repetir chavões surrados que, felizmente, não vão dar em nada. Aqui no Brasil as coisas vão mal, mas ainda não somos a Venezuela. Nem Cuba. Felizmente.

Henrique disse...

Eu acho que há diálogo nesse blog sim. De forma muito inteligente. Só que argumentos como "esquerda ridícula", "fase embrionária", e outras depreciações infantis fica difícil realmente debater.

johann disse...

Henrique, vc escolheu citar apenas os adjetivos que citei, mas ignorou os argumentos que apresentei, como é de praxe por aqui.

O "debate" aqui só existe para quem acha que bom é Chavez, Fidel, comunismo. Quem não reza por esta cartilha é chamado de "direita"... Em outros comentários meus aqui ninguém tocou nos argumentos apresentados. O pessoal aqui adora o que Freud chamava de "projeção"...

johann disse...

Em tempo: o autor deste texto devia ser processado por incitar ao crime de roubo. Se o governo é ruim, a sociedade é injusta e o mundo é cruel (OH, Deus!!), não é a Velox nem qualquer outra empresa que deve merecer ser roubada por causa disso.

henrique disse...

Johann, eu citei esses adjetivos para mostrar o nível de debate que se pretendia. De nada vale sofisticar o debate em alguns pontos se no final do seu comentário você usa todos esses adjetivos. Não ignorei seus argumentos. Simplesmente não quero naturalizar e legitimar a injustiça do mundo como você pretendeu no seu argumento. E também não se trata de tratar os pobres como “coitadinhos” longe disso. Mas também não aceito a idéia apregoada pelos neoliberais de que os pobres são pobres porque eles são incapazes, incompetentes, ou não tem o capital humano necessário para subirem na vida. Não estou dizendo que você tem essa visão, pois não vi você dizer isso. Odeio também qualquer discurso inflamado que taxa o seu opositor seja ele de esquerda ou de direita.
Agora não acredito que não precisamos mais de um Che Guevara. Robin Hood tudo bem. Mas o Che Guevara é justamente o que corresponde a nossa fase pós-embrionária. Qualquer possibilidade de democratização de ensino, de cultura soa para os políticos conservadores como uma ameaça, como algo grave.
Sobre o discurso da pirataria que é outra polêmica a parte, acredito que numa sociedade em que um determinado tipo de cultura fecha as suas portas, ou se torna elitizada, qualquer tentativa de popularização e democratização é justa. E nesse caso legitimo a pirataria enquando cd’s, livros, programas e outras coisas terem um preço exorbitante. E enquanto formos obrigados a ter como “opção” os canais de nossa TV aberta, acho um GATO-NET legítimo.

Anônimo disse...

Parece-me que todo mundo que defende esse tipo crime tem um emprego público. Estou certo?