quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Por que Hitler foi um idiota?




Largas dentaduras,

vosso riso largo

me consolará

não sei quantas fomes

ferozes, secretas

no fundo de mim.

Não sei quantas fomes

jamais compensadas.

Dentaduras alvas,

antes amarelas

e por que não cromada

se por que não de âmbar?

de âmbar! de âmbar!

feéricas dentaduras,

admiráveis presas,

mastigando lestas

e indiferentes

a carne da vida!

Carlos Drummond de Andrade


Na semana passada, quando a mesma imprensa que glorificava o capitão Nascimento como herói nacional, tentava assassinar a memória de Che Guevara, voltava eu com minha filha da escola e veio a pergunta: “mãe, é verdade que Hitler era um homem muito inteligente?”. Meu espanto: “Como assim, filha?” Resposta: “É, mãe, meus amiguinhos, Fulano e Cicrano, dizem que Hitler foi um homem muito inteligente. Eles não concordam com o nazismo, mas dizem que ele era muito inteligente.” Na mesma hora, mesmo com todo o espanto, respondi: “Hitler foi medíocre em tudo e apenas soube explorar o medo e o desespero das pessoas na época em que viveu. Mesmo como estrategista militar, deixou a desejar quando, com seu exército batido na frente oriental pelos russos, preferiu destinar recursos à deportação de seus prisioneiros judeus, comunistas, ciganos e homossexuais, bem como às máquinas de matar dos campos de concentração, ao invés de investi-los no front de batalha.” Continuei: “além disso, ele era um homem preconceituoso e sabemos que o preconceito é fruto da ignorância.” Ela disse: “mãe, então escreve um texto explicando por que Hitler foi um idiota?”.


Essa era minha intenção. Boa para dia das crianças. Boa para tempos em que se discute sobre fascismo no cinema nacional. Boa para pensar por que crianças de classe média brincam de tropa de elite, desenvolvendo indiferença (para não dizer ódio) em relação aos moradores das favelas que as circundam. Excelente tema também para refletir sobre a questão da propaganda política, seja a mais explícita, seja a mais velada, travestida de jornalismo e entretenimento, e seu papel numa sociedade na qual o atraso da desigualdade social abissal convive com a “modernidade” midiática capaz de estetizar a fome e a miséria como problemas resultantes da “natureza humana”, ahistórica e, portanto, imutável.


Pensei em Goebbels, ministro da Propaganda de Hilter, cuja frase atribuída mais conhecida é “uma mentira repetida várias vezes pode se tornar uma verdade para os incautos”. Se pensarmos bem, Goebbels descobriu não somente a alma da propaganda política, mas a alma da propaganda em geral. Goebbels poderia ser editor da revista Veja. O mundo de Veja é o dos transgênicos que não fazem mal à saúde, da economia que vai bem (o desemprego é culpa dos desempregados, pois trabalho há!), das madeiras do reflorestamento politicamente correto dos desertos verdes criados pelos eucaliptos e o dos pobres que estragam tudo quando resolvem se organizar para reivindicar seus direitos (vide “madraçais do MST” e outras pérolas semelhantes comparando movimentos sociais a terrorismo e fanatismo religioso).


Pensando em tudo isso, artigo quase terminado, fui ao mercado e me deparo com o bombardeio de Época, Veja, e Revista da Semana (versão mais “popular” da Veja) com louvações da Tropa da elite (o que só confirma análises desenvolvidas em diversos artigos críticos ao filme) e defesas das posições assumidas por Luciano Huck frente ao assalto por ele sofrido.


Até aí nada demais além do que se poderia esperar. O que mais me chamou a atenção foi algo que me fez reviver Hitler, Goebbels e todos os seus comparsas. Trata-se de um anti-intelectualismo nas defesas de Huck e do filme do Padilha. Independentemente da análise dos escritos produzidos sobre os temas e sobre o próprio filme há uma seguinte equação afirmada e reafirmada: quem denuncia o direitismo do filme, seu caráter de monólogo de propaganda do BOPE, quem fala em nome do estado de direito (pior ainda se em nome de direitos humanos), quem chama a atenção da alienação do show man global que se indigna midiaticamente com o que é cotidiano para a maioria dos brasileiros, são “intelectuais”, seres humanos inúteis que, o invés de ganharem dinheiro ou trabalharem de verdade, resolvem se achar no direito de criticar e dar interpretações sobre a realidade. No caso das análises do filme Tropa de elite é ainda pior, porque todos os que demonstraram a naturalização da tortura e a glamourização de outras práticas corriqueiras de desrespeito ao estado de direito estão sob suspeita de serem, no mínimo, coniventes com o tráfico de drogas. Como diz a Veja, panfleto ideológico da direita radical travestido de jornalismo, todos os que criticam o filme pertencem o “bonde do Foucault”, pensador que se dedicou, entre outros temas, a refletir sobre os micropoderes na sociedade e os mecanismos, mais ou menos sutis, de controle social. Somos todos “playboys do relativismo”, culpados pela “tragédia social brasileira”, que nada tem a ver com desigualdade, mas sim com um Estado fraco na capacidade coercitiva. Se esse mesmo estado, para o fascismo neoliberal, tem de ser tímido no controle dos lucros dos bancos e das grandes corporações, por outro lado ele tem de ser máximo e forte no controle das mazelas geradas por esse mesmo sistema. E aí o BOPE é pouco para lidar com o exército de desempregados e despossuídos de tudo, cada vez mais identificados pela direita festiva, sempre empolgada com os abstratos índices econômicos, enquanto classes perigosas.


Se nos tempos de Guerra Fria éramos acusados de comer criancinhas, hoje somos maconheiros, drogados, coniventes com a violência ou então atrasados e fora de moda (olha a cafonice aí de novo! ai meu deus...). Nenhuma palavra contra a indústria bélica que fornece as armas que vão parar nas mãos do tráfico. Afinal, quais as ligações de grandes anunciantes dessas revistas, como Bunge, Cargill, Monsanto com setores que se beneficiam com tráficos de drogas lícitas e ilícitas no mundo? E a indústria farmacêutica que, legalmente, fornece os psicoativos que nos tornam um país recordista mundial no consumo de medicamentos tarja preta? Melhor encontrar culpados mais palpáveis (como os judeus na Alemanha nazista) entre aqueles cuja vida não vale quase nada e entre os que, em sociedades midiáticas e não democráticas, são alvos prováveis para a exploração de ressentimentos sociais resultantes de uma ignorância cuidadosamente cultivada pelo grande capital.


Bom, não foi desta vez então que eu pude explicar para minha filha por que Hitler foi um idiota. Se bem que, pensando bem, não sei não. Acho que, em parte, já respondi à pergunta da pequena...

Adriana Facina (UFF/Observatório da Indústria Cultural)


Publicado originalmente em http://www.fazendomedia.com/ em 15/10/2007

12 comentários:

D disse...

Hehehe!

Adorei o titulo do post!

Hj em dia vivemos num momento mto complicado, onde o Hitler, de acordo com certas estatisticas de um bom tempo atras(so nao lembro de onde), seria o terceiro "heroi" dos jovens soldados no Sul do Brasil.

Mas algo poderia ser assumido, nao por admiracao, mas sim pela necessidade do reconhecimento de certas realidades e separacoes conceituais. Sem estas, preconceitos e erros podem continuar a serem repetidos.

O Hitler foi um homem inteligente? Bem, podemos ao mesmo dizer q ele foi mto convincente. Com uma empatia imensa. Criando apoio em inumeros intelectuais extremamente inteligentes e capazes. Conseguindo criar uma imagem social terrivel e temivel. Negar isso é repetir erros historicos, q podem atrapalhar no proprio reconhecimento do errado e certo.

Essa ideia me lembra a da Hannah Arendt, qnd esta disse q o Eichmann nao era o monstro q foi propagado pela caca ao nazismo logo apos a guerra. Ela o descreveu exatamente como um homem comum, capaz de amar seus filhos e ter amigos. Porem, ao enviar as pessoas para os campos de concentracoes, ele simplesmente realizava uma performance q era esperado dele. Nesse sentido, ela fala exatamente da "banalidade do mau", visto ter sido um simples burocrata comum ter sido responsavel diretamente pela morte de inumeros judeus, q nao imaginava o erro da sua propria acao dentro de um esquema social. Exatamente por essa descricao "amavel" ao Eichmann, ela foi chamada por mtos de "anti-semita" - apesar dela mesma ser judia e ter fugido do nazismo por essa caracteristica. O estudo da Arendt é bom para mostrar q a face do mau nao necessita ser algo terrivel ou bizarro, mas como pode ser ate mesmo sedutor e se vestir de ideologias interessantes.

O mesmo erro se da, de forma contraria, ao Platao. Este identifica o "bem" com o "belo". E é incrivel como td a sociedade ocidental se desenvolveu de forma a juntar ambos. Claro, mtas pessoas tendem a pensar exatamente na ideia de "beleza interior" a ideia de ser uma "boa pessoa". E por um lado, bem construtivo, tal equivalencia nao seria tao problematica, pois ela criaria um bom contraposto à ideia da "beleza externa" e "beleza interna". So tem um problema. A logica aqui nao é somente de uma via, mas de duas. Em mtos momentos da humanidade a ideia uma pessoa era "feia", por consequencia metafisica ela, era tb "ruim". E da mesma forma, se a pessoa era "bonita" era "boa". Nao havia a possibilidade de distincao entre os dois atributos. Isso nao é somente algo do capitalismo, mas sim de uma metafisica ainda mais antiga q este, onde induz a pensar q individuos q nao possuem boas roupas ou boa aparencia, ou ainda inteligencia, nao poderia ser uma boa pessoa. E q uma pessoa com essas qualidades tinha tb a de ser bom. A conflacao de atributos podem gerar um mal mto maior.

Concordo contigo qnd diz q o Hitler foi um idiota, um preconceituoso safado, um canalha q usou o medo da epoca de uma nacao, um pessimo estrategista, e td mais q vc descreveu acima. Porem, eu acredito q inteligente e alguem com um carisma imenso, bem...isso nao pode ser negado. Negar isso pelas atrocidades q ele cometeu é nada mais q cometer o mesmo erro do Platao e daqueles q perseguiram a Arendt.

Qnt a parada do "bonde do Foucault"...hahaha! Aquilo ali nao é pra ser levado a serio, mas sim é um pasquim! É pra se rir! Eu nao consigo acreditar q ninguem tenha escrito aquilo de forma séria...hehehe! Alias, o Nascimento, um "kantiano rustico"...o pobre filosofo deve ter quebrado o caixao dele nesse momento. Hehehe!

Abs!

PS: Vcs poderiam escrever algo sobre o imaginario social atual acerca das drogas. Isso sozinho merece mais do q um unico post. Ate pq o filme la reanimou a porra desse preconceito de forma incrivel.

Adriana disse...

Caro ou cara D,
Obrigada por seus comentários sempre tão qualificados. Suas intervenções neste espaço têm contribuído muito para o enriquecimento do debate que propomos aqui.
Será que vc não gostaria de escrever esse artigo que vc propôs? Seria excelente.
Um abraço,
Adriana Facina.

henrique disse...

Adorei o texto! Me tocou em algumas questões que eu venho pensando ultimamente. Essa lance de se atacar as críticas como produto de um intelectualismo esquisofrênico.
Uma vez, apresentando minha opinião sobre o filme o tropa de elite, uma colega me disse: "pare de filosofar, caia na real"...
E ainda a VEJA que vem indignando a todos com umas barbaridades terríveis...
Um grande abraço!

d disse...

Oi Adriana,

obrigado pelos elogios (espero q vc nao tenha sido ironica...hehehe!).

Qnt a possibilidade de escrever um post aqui, vc esta falando serio? Caso sim, acredito ser melhor discutirmos isto por e-mail - mas ja de agora agradeco o convite.

Abs!

Adriana disse...

Não fui irônica, estou falando sério. Mande um email pro oicult pra gente combinar seu post.
abs

Daniel disse...

Apesar de todas as bobagens que ouvi e li por ai, fico feliz em perceber que ainda existe luz no fim do túnel.De fato o aparato midiatico aliena, engana, distorce, manda, desmanda,faz e desfaz!Esse filminho ai nada mais é do que a prova inconteste da falencia do Estado no qual alem de nao cumprir sua funçao social e constitucional, permite que cochorros loucos com fome de sangue, utilizem do poder coersitivo para a matança desenfreadamente,sob o escudo legal , que é o pior.

Parabens pelo post , foucaut muito bom rsrsr.

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