terça-feira, 6 de novembro de 2007

HEROES DE QUEM?


Após um eclipse total pessoas aparentemente comuns passam a ter conhecimento de seus poderes extraordinários, esse é o enredo básico de um dos mais recentes fenômenos televisivos, a série Heroes. O seriado se passa em várias partes do mundo, tendo como ponto central a cidade de Nova Iorque. A série filmica alcança uma audiência e um debate invejável. No google a palavra Heroes atinge a impressionante marca de 181.000.000 de páginas.


As personagens do seriado são da maior diversidade possível: Claire, uma líder de torcida que tem o poder da regeneração espontânea; Isaac Mendes, pintor que tem como habilidade pintar o futuro em suas telas; Hiro Nakamura, um japonês que pode manipular o tempo e espaço; Parkman, um policial que tem o poder de ouvir os pensamentos das pessoas; Ted, cuja habilidade é emitir energia radioativa do seu corpo; Peter Petrelli, que possui o poder de absorver dons de outros poderosos; Nathan Petrelli, irmão de Peter, candidato ao Congresso dos EUA por Nova Iorque, seu poder é voar; Sylar, o vilão da história que rouba o poder das pessoas no momento em que as mata, entre vários outros personagens.

A ilusão cinematográfica colocada nas telas dos aparelhos de televisão no mundo inteiro tem como responsáveis a NBC nos EUA, que já está em sua segunda temporada e no Brasil é transmitida pela Universal Channel e pela Rede Record que iniciou o seriado há poucas semanas sendo parte do projeto da emissora para garantir o segundo lugar da audiência e incomodar a líder Rede Globo. A Rede Record está vinculando chamadas com argumentos poderosos como a presença do carismático japonês Hiro Nakamura com o intuito de fidelizar o espectador ao seriado.

Um dos personagens de maior análise é Nathan Petrelli, candidato ao Congresso dos EUA que tem o poder de voar com propulsão própria. O “homem-voador” é filho de um veterano da Guerra do Vietnã e que serviu à marinha estadunidense. É um dos personagens que menos demonstra seu poder na série, receoso de ser visto como uma anomalia e isso abalar a sua campanha para deputado. Nathan descobre seu poder quando foge de um acidente de carro que deixa sua esposa numa cadeira de rodas. Para “divulgar” a série a rede NBC criou o site Vote Petrelli[1]. O site é muito interessante e até convincente, um desinformado do seriado poderia acreditar na campanha fictícia. Além de mostrar seu plano de governo é possível conhecer Nathan em suas fotografias pessoais, além de comprar bonés, broches e camisetas da campanha.

A arte cinematográfica é capaz de modificar os processos de transmissão de conhecimentos, podendo servir segundo Walter Benjamin[2] como um instrumento de educação das massas. Para o teórico o que interessa na obra de arte é a sua função social, uma arte cinematográfica tem de ser discutida do ponto de vista da comunicação, publicidade, informação e educação, esses pontos fazem com que a obra seja ordenada em sua definição funcional político-social.

Na arte ocorre a anexação de preceitos mercadológicos, sendo transformada em um produto da indústria cultural, podendo, portanto analisar a relação da arte com a história ou sua influência na construção da opinião pública, já que o filme é transformado puramente em uma mercadoria. Para esses consumidores de imagens além da diversão, haverá a educação no sentido de dominação de um determinado sistema, principalmente para reafirmar a hegemonia sobre o planeta. Em Heroes quando o assunto é dominação temos os EUA como os salvadores da humanidade, espelhando no mundo da fantasia o que se espera no real.

No próximo ano ocorrerá nos EUA uma das eleições de maior disputa segundo especialistas, transformando a campanha presidencial na mais cara da história, alguns técnicos chegam a falar em US$ 1 bilhão[3]. A campanha presidencial que gira em torno de nomes como: Hillary Clinton, Barack Obama, Bill Richardson e Rudolph Giuliani tem como um de seus objetivos básicos a aceitação perante a população. Os Estados Unidos são vistos como o paraíso da democracia no mundo, mas isto não é bem verdade, já que é preciso passar pelo colégio eleitoral para que seja aprovado o nome daquele que terá o poder decidir sobre o futuro de grande parte do planeta. Ocorre uma necessidade vital de aproximar a política do cidadão, pois determinadas questões irão passar pelo crivo da sociedade como é o caso da ocupação dos EUA no Iraque, tema que faz com que a popularidade do presidente George W. Bush sofra alterações constantes.

Como conseqüência da Guerra Fria e dos mais recentes atentados terroristas, armas de grande destruição com potencial químico e biológico fazem parte da preocupação do cidadão estadunidense, tendo como reflexo direto a imagem fílmica, alimentando o imaginário das produções, exemplo clássico ocorre em Independence Day.

Dentro de uma produção quanto mais inocente ou ingênuo é um filme, mais suspeito deve ser. O não visível das imagens aparece como uma forma de dominação da indústria cultural. No caso do tolo enredo de Heroes, pessoas com superpoderes à lá X-Men, o contexto é nada mais do que uma prática social que colabora com a construção do imediatismo do presente. Nathan Petrelli aparece no seriado como um candidato conservador que defende valores como a família e da harmonia social, em uma das cenas afirma que as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki eram algo necessário para que os EUA não fossem destruídos na Segunda Guerra. Essa acaba sendo a questão fundamental do seriado: a destruição.

Um dos superpoderosos Ted tem o poder de emitir picos de 10.000 Cúrios de radiação, o suficiente para causar a morte como ocorreu com sua esposa. Karen, que faleceu devido à manifestação de sua habilidade, ela sucumbiu ao câncer depois de enfrentar grande exposição a intensos níveis de radiação.

O pintor Isaac Mendes que prevê o futuro em suas telas enxerga uma grande explosão em Nova Iorque, algo que passa a ser de conhecimento de Hiro Nakamura. Dessa forma o japonês vai para Nova Iorque iniciar a sua jornada para salvar o mundo, contando com o apoio de Peter Petrelli que na verdade será o grande causador da destruição da sociedade novaiorquina, já que seu poder é o mimetismo e após contato com Ted também passa a ter o poder da emissão radioativa.
O último episódio da primeira temporada de Heroes tem como tema central a explosão nuclear que Peter irá provocar no centro de Nova Iorque, ela ocorre, mas segundos antes é impedida de atingir a sociedade graças ao “homem-voador”, Nathan Petrelli que com sua habilidade de romper a velocidade do som em seus vôos retira o irmão do centro da cidade e o leva para o céu, salvando assim toda a população novaiorquina.

Em tempos de campanha, o seriado transmite a salvação da sociedade do mais temido medo da população estadunidense, a bomba! O já deputado Nathan apresenta a solução salvacionista para a paz e harmonia nos EUA, causando a mobilização das massas em torno de um “Petrelli para presidente dos EUA”

[1] www.votepetrelli.com
[2] BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutividade técnica. In. ___ Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1993.
[3] EUA: campanha presidencial deve ser a mais cara da história. Terra. 22 de out. 2007. Disponível em: http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI2012048-EI8141,00.html. Acesso em: 28 de out. 2007.
Horários:
NBC 2ª feira 23hs
Universal Channel- 6ª feira 21hs
Record - Domingos 21hs.

Leandro Pereira Gonçalves (CES-JF/Observatório da Indústria Cultural)

3 comentários:

D disse...

Ok, ok, ok...

Logo de cara devo confessar, sou um grande fa do seriado. Nao somente por ele ser algo em torno de super-herois, mas tb por ele ter em seu seio um tema existencialista mto interessante: "quem eu sou". Essa pergunta no seriado se transforma ao seu longo e de forma interessante na seguinte ideia: "o QUE eu sou pode determinar QUEM eu sou?".

A questao do Nathan Petrelli como um ambicioso homem, desejando entrar na politica por tais ambicoes, e tb por uma grande influencia da mae, se chocam em td o momento no seriado. De um jovem advogado idealista a um pretenso politico cinico existiu mta historia. Descontextualiza-la é um erro mto grande(um erro hermeneutico, diga-se de passagem), pois a leitura de seu cinismo se da exatamente na ideia da impossibilidade social de condenar um grande mafioso, na morte de seu pai (ao qual ele iria trair), e num acidente causado por tal mafioso q deixa sua esposa paraplegica. Sua frieza perante a realidade nasce da propria percepcao da "glacialidade" do mundo, como td parece ser impossivel de se modificar, e com isso, "cada um por si".

A descoberta de seus poderes o choca nao somente por atrapalhar a sua campanha, mas sim pelo peso de nao ter podido ajudar a sua esposa (pois como bem dito, ele descobre seus poderes no momento em q acontece o acidente, e como nao os dominava ainda, os seus poderes acabaram o impedindo de poder ajudar sua esposa). Porem, qnd seu irmao precisou, ele o ajudou, sem medo e com a coragem necessaria. Nao pq ele iria ganhar algo com isso, mas sim pq o ama. O ter poderes o assusta ainda por ser algo incomum, algo q as pessoas nao deveriam ter. Ter poderes, citando uma personagem é "ser um 'freak'". A separacao de si dos outros gera tal sentimento de auto-alienacao.

A bomba...bem, isso é o mote do seriado. E se for bem visto, os "malvados" querem q td aconteca. E pq eles querem isso? Simples, isso serve como uma arma ideologica a ser usada para a reconstrucao do pais sobre o pilar q eles desejarem, bem como para a eleicao do Nathan, q por apoio de sua mae e outros, deveria usar tal acontecimento como uma plataforma politica.

Porem, algo acontece...a bomba nao explode! Pq? Simples, o proprio Nathan impede isso. Ao resgatar seu irmao e o levar aos ceus, este explode la em cima, salvando a tds em NY. Ele desiste da propria campanha politica, como de sua carreira pra simplesmente afirmar o amor ao seu irmao. Basicamente a busca por si se da na descoberta da necessidade dos outros, de se tornar um heroi. E é isso q o Petrelli no fim faz. Descobre q seu irmao, e o povo de NY, valem mais q uma campanha demagogica para a solidificacao do poder.

Isso se nao contarmos os outros personagens. A ideia basica do seriado é: "Quem vc é". Vc é alguem q deixaria uma bomba explodir, nao importando sua magnetude? E talvez nao somente uma bomba, mas tb o controle social nas maos de uns? O seriado nao busca transmitir: "a salvação da sociedade do mais temido medo da população estadunidense, a bomba!", mas sim q cada um tem algo dentro de si q busca afirmar-se em acoes, e q vc escolhe o lado. E essa descoberta é sua responsabilidade.

A simples afirmacao q tal seriado é a representacao coletiva de uma sociedade nao é verdadeiro se observarmos a responsabilidade q cada um dos personagens tomam para si em salvar os outros, nao somente de uma bomba, mas de um grupo de poderosos.

Particularmente, nao é o q é afirmado aqui qs sempre, q os meios mediatico sao dominados por grupos q buscam se fortalecer? A critica a possibilidade de salvacao é a critica tb a possibilidade do proprio blog. Pois sao individuos buscando "criticar" o exposto como sendo o real, e q o real esta sendo na verdade encoberto por interesses.

Isso pra colocar um vies social no seriado, q ao meu entender é mto mais existencial...mas td bem, e alem disso, a bomba é so um pano de fundo, poderia ser qq coisa.

A critica tem q tomar cuidado pra nao se transformar em preconceito.

Abs!

D disse...

Esqueci ainda de citar q a raiva do Nathan qnd descobre seu poder nao devem somente dos motivos ja citados, mas sim q a descoberta de seus poderes lhe dao uma nova responsabilidade.

Tais poderes sao o acrescimo de uma possibilidade, e o q ele faz com essa possibilidade é sua responsabilidade. Por isso a angustia de ser diferente, pois essa é a angustia de ser ver capaz de algo. E essa capacidade acrescenta a responsabilidade de fazer aquilo q vc é capaz, e se vc nao fizer...vc se omitiu, e isso é sua culpa.

O medo de se ver responsavel é o q faz o Nathan ter tanta raiva de seus poderes, pois agora ele pode fazer algo. E isso acrescenta ainda mais a busca por si. "Vc é alguem q se omite ou q faz o q vc pode pra ajudar aos outros?" A busca é a busca de si, da existencia.

Peco desculpas pelo acrescimo ao ja extenso comentario acima.

Abs!

Anônimo disse...

Acho que "d disse" traduziu muito bem o que me incomodou no texto crítico sobre a série. E eu nem sou fã dela. Apesar de todos sabermos que tudo sempre se passa nos EUA, que todas as soluções para o destino da humanidade tem que necessariamente passar por lá, eu ainda assim acho forçada a idéia de que o personagem do Nathan seja a tradução do reacionarismo estadunidense - como d disse, o personagem é retratado como alguém ambicioso, dissimulado. Custa-me acreditar que os telespectadores da série aprovem suas ações. Até porque há seu irmão para mocinho da série.
abs
Eduardo Luedy