sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Che vive!



O NASCEDOR


Por que será que o Che

Tem este perigoso costume

De seguir sempre renascendo?

Quanto mais o insultam,

O manipulam

O atraiçoam

Mais ele renasce.

Ele é o mais renascedor de todos!

Não será por que Che

Dizia o que pensava e fazia o que dizia?

Não será por isso que segue sendo

tão extraordinário,

Num mundo onde palavras

e atos tão raramente se encontram?

E quando se encontram

raramente se saúdam

Por que não se reconhecem?

Eduardo Galeano



Na semana em que se iniciam diversas mobilizações que colocam na ordem do dia o debate sobre a democratização da comunicação, a revista Veja traz Che Guevara como matéria de capa. Na rememoração dos 40 anos do assassinato do revolucionário, o maior panfleto ideológico das classes dominantes no Brasil dedica 8 páginas da edição, e mais a “Carta ao Leitor”, a demonstrar que Che era uma farsa, um assassino sanguinário e líder de causas derrotadas.

Num modelo de antijornalismo, exemplo da falta de transparência e visão antidemocrática da veiculação da (des)informação, a matéria se baseia principalmente nas declarações de exilados cubanos em Miami, considerados “vozes de maior credibilidade” pelo veículo. Esses exilados, como todos sabem, são a base avançada estadunidense para ações ideológicas e políticas (algumas delas armadas) cujo objetivo contra-revolucionário é derrubar o socialismo cubano.

Além desse comprometimento inicial com uma visão tendenciosa, que por si só é suficiente para deslegitimar o artigo de opinião travestido de “reportagem”, o texto traz uma série de erros históricos. Eles vão desde o mais prosaico, como o equívoco na data de nascimento do comandante, até à caracterização da natureza da revolução cubana. A historiografia consagrada sobre a revolução aponta para o fato de que, a princípio, sua natureza política era a de um movimento nacionalista e antiimperialista. A declaração do caráter socialista da revolução só ocorreu em 1961, dois anos depois da vitória em 1959, e se deu como reação aos embargos e pressões políticas estadunidenses, empurrando Cuba para um alinhamento e uma dependência econômica cada vez maior em relação à União Soviética. Mas, na versão da Veja, o que ocorreu foi um golpe comunista dentro da revolução, liderado por Che e por Raul Castro, irmão de Fidel. Desprezar a forte investida contra-revolucionária dos EUA, que foi e permanece sendo um ataque contra o povo cubano, como elemento central para contar essa história é, aí sim, pura farsa.

Para Veja, além de um “maníaco”, de um “assassino cruel”, Che Guevara era também um perdedor, um loser como se diz nos EUA, líder de “causas sem futuro”. Com a queda do muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, na concepção da revista-panfleto, o socialismo, que já era ruim, se tornou um regime político atrasado, fora de moda (será que cafona também?). No entanto, fica a pergunta: por que a deslegitimição dessas causas perdidas merecem ainda tanto espaço na mídia burguesa? Se essas lutas não tem mais nada a dizer ao mundo globalizado e neoliberal, qual o motivo de fazer de Che matéria de capa? Por que Che ainda incomoda tanto?

É a própria Veja que responde: a revolução (que o periódico chama de “banho de sangue” e “onda de destruição”) está viva na América Latina. Eleição de governos populares como o de Evo Morales na Bolívia, o levante de Oaxaca no México, revisão de concessões públicas de TV na Venezuela de Chávez, movimentos sociais em todo o continente reivindicando direitos expropriados pelo capital demonstram que as lutas anticapitalistas contam com apoio popular expressivo na latinoamérica.

Mas talvez a melhor resposta esteja com Eduardo Galeano, na poesia citada acima. Como o mais renascedor de todos, Che Guevara porta as esperanças dos oprimidos de toda parte. Daqueles que sonham com um novo tempo no qual atos e palavras possam se reencontrar e se reconhecer. A imagem de Che, sua simbologia do herói revolucionário humano, amoroso, que falava em não perder a ternura mesmo em tempos duros têm muito a dizer a todos aqueles que insistem em não se conformar, em não acreditar que competir é melhor do que fazer junto, que não perdem a esperança na luta por um outro mundo, feito de solidariedade e justiça, de respeito à vida humana.

O engraçado é que a própria matéria da Veja confirma isso com suas fotos. Mesmo querendo assassinar Che novamente, a revista traz fotos belíssimas do revolucionário, como a que ele trabalha com uma pá nas mãos numa frente de trabalho voluntário em Cuba e uma outra em que carrega um bebê no Congo. Fotografias plenas de humanidade, que transparecem, mais que a crença, a certeza de que é possível mudar a história.

Sinais das ruas: foi impressão minha ou nesses últimos dias realmente havia mais pessoas vestindo camisas pintadas com o rosto de Che Guevara?

Publicado originalmente em www.fazendomedia.com

Adriana Facina (UFF/Observatório da Indústria Cultural)

5 comentários:

david disse...

O que voc� se esquece de dizer, por conveni�ncia provavelmente, � que muitos desses movimentos 'anti-capitalistas' tem MUITO capital por tr�s, e que as maiores fortunas da terra, est�o pouco se lixando para a tal sociedade judaica-crist� inclu�ndo os que dizem o contr�rio,como bush, que frequentemente se associa com que tem de mais anti-crist�o/ocidental(n�o consigo ver um presidente dos EUA atual ou futuro, que corte rela�es com a China).O problema de voc�s da esquerda n�o � o capitalismo em si, mas o capitalismo na m�o dos outros.Acho, que se h� uma sa�da, ela est� na consci�ncia e na luta individual, sinceramente.

Diogo disse...

"...movimentos anti-capitalistas tem muito capital por tras,..."
Sinceramente Facina, como você aguenta isso? China comunista? Estados Unidos rompendo com China?
...pelo menos já temos a farofa só falta um sol de domingo, uma praia e aquele franguinho.

A. disse...

E a VEJA continua como uma das maiores e piores representantes da mídia colombina. Chega a ser patético...

ventos ululantes disse...

CHINA COMUNISTA
CHE NA CHINA
CHENA

Henrique disse...

Adorei o texto!
Em tempos de revistas como Veja, Época, e toda essa mídia e também um telejornalismo medíocre é um grande alívio!