sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Telona, Sala Escura e Encontro com Milton Santos



Em dezembro de 2000 fui a São Paulo passar a virada de século entre amigos no litoral paulista. Naquele momento, eu ainda morava em Belém, estava na reta final do mestrado sob a orientação da professora Maria Célia Nunes Coelho que fez-me portadora de um presente para o professor Milton Santos. Um livro sobre políticas públicas para a Amazônia.

No final de dezembro marquei o encontro para 04 de janeiro de 2001. No dia e hora marcados, o professor concedia a entrevista ao cineasta Silvio Tendler. As quatro horas de espera, até o término das filmagens, foram compensadas pelo abraço carinhoso e um autógrafo no meu exemplar de Por uma outra globalização (2000). Eu e Silvio Tendler temos nossos exemplares autografados no mesmo 04.01.2001. Informação constatada na telona da sala escura durante a exibição do filme Encontro com Milton Santos. Assisti ao filme com uma emoção especial.

O filme do Silvio Tendler veio a público seis anos e seis meses depois daquele encontro na USP. Fazer cinema é coisa demorada e muito cara. Tendler despendeu mais tempo do que eu precisei para finalizar o mestrado e o doutorado. E assim é o filme: a apresentação da idéia pelo diretor promove a discussão e busca a explicação para o fenômeno da Globalização, tendo na entrevista concedida na USP o seu o fio condutor.

A primeira pergunta: É difícil ser intelectual negro no Brasil?
É difícil ser negro e é difícil ser intelectual. Porque no Brasil não há a prática da cultura racional, ou seja, a cultura da crítica, do pensamento racional. É assim que começa a conversa com Milton Santos. E, não tarda em apresentar a questão central: A Globalização, contundentemente exposta através do pensamento do geógrafo e no roteiro do filme, acompanhado de imagens e falas, de manifestações em defesa dos direitos à água, terra e moradia.

Milton Santos explica a Globalização, seus processos, efeitos e contradições, e diz que ela possui três faces: a primeira é aquela apresentada pela publicidade, criadora de ilusões onde o mundo real inexiste; a segunda é a da perversidade, das contradições, da concentração de riquezas e da expropriação da grande maioria da população mundial. Para Milton Santos, a Globalização como perversidade é uma forma de totalitarismo. O autoritarismo de um grupo restrito de pessoas a controlar grandes corporações, que acreditam ter o poder de dominação. A mídia, nesse contexto, é instrumento de disseminação do pensamento único, a defender a concentração de riquezas, enquanto, o número de pobres aumenta cada vez mais. E a terceira e última face da Globalização, defendida pelo professor no livro citado, é aquela que seria possível, a Globalização a partir da solidariedade.

O filme finaliza com uma mensagem de credibilidade e esperança na ação humana e no futuro. Homenageia o professor estendendo-se a todos os Geógrafos. É, sem dúvida, o reconhecimento das idéias de um geógrafo do terceiro mundo. Mas, infelizmente, o filme só pode ser visto em uma sala de cinema no centro de um grande centro urbano, dando continuidade à lógica da globalização como perversidade, que seleciona quem tem o direito ao acesso a filmes dessa natureza.


Elis Miranda
Doutora em Planejamento Urbano e Regional
Professora/Pesquisadora do Mestrado em
Planejamento Regional e Gestão de Cidades
UCAM-Campos

3 comentários:

osrevni disse...

Vi esse filme no festival de cinema brasileiro de Paris, em abril. O Tendler esteve aqui, trêmulo, com sua bengala. Foi muito emocionante.

André disse...

O filme "Encontro com Milton Santos" já foi exibido publicamente em diversas ocasiões... vou citar algumas:
Escola Nacional Florestan Fernandes, em Guararema - Uma Universidade Popular construída pelo MST
No circo voador no Rio
Numa carceragem em Nova Iguaçu
Dentro de uma ocupação de sem-tetos no Rio.

E dentro em breve vai haver uma tiragem de 1000 para sindicatos e movimentos populares.

Depois muitas outras exibições e cópias de mão em mão ou vendido nos camelódromos... baixado na internet...

ou seja ele vai se espalhar...

Victor Prímola disse...

Pois eu, que não estive em Paris, nem na USP, nem em um outro grande reduto cultural destes,tive a chance de vê-lo por acaso,na TVE ou TV Brasil(sei lá,parece tudo uma farofa só),enquanto zapeava, e o filme já tinha começado, mas mesmo assim ele me 'pegou pelo pé'.Primeiro, pela qualidade da narrativa, depois pelas informações desconhecidas da maioria dos brasileiros, que eram ali passadas com extrema generosidade.Me espanto ao usar a palavra generosidade assim, já que informação é um direito fundamental que, no entanto, no nosso tão querido Brasil, nos é sistematicamente negado por essa democracia de fachada que tentam nos impingir através da midia. Fiquei estarrecido, encantado, me vi ali, irmanado ao milhões de brasileiros que há muito não têm notícias do mundo real, não têm voz e acham que estão enlouquecendo com a falta de identidade cultural, política e, sim, patriótica.Ao ABRAÇAR este tema, Silvio Tendler, mais do que político, foi extremamente generoso com TODO o povo brasileiro, ao registrar em película (um meio perene e altamente disseminável) a língua portuguesa do Brasil(PT-BR) dirigindo-se diretamente aos brasileiros e a quem mais interessar, mas, desta vez, dizendo coisas reais, importantes, INTELIGENTES, CONSCIENTES, HUMANAS, RESPONSÁVEIS!!! E mais: juntamente com outros brasileiros que lutam para que seus filmes, livros e trabalhos que enfocam "a razão que se perdeu" tenham espaço de visibilidade, Silvio, assim como Milton, são dois entre muitos pequenos e bravos, que teimam em colocar o Brasil na vanguarda do pensamento, junto ao côro dos que apontam para a necessidade urgente de um novo humanismo. Este filme me levou a encontrar "A Corporação", "Quem Matou o Carro Elétrico", "Fabricando Consenso"("Manufacturing Consent"), e estou só começando com a minha leve contribuição de um pequeno, porém real efeito multiplicador. E Viva a Escrava Anastácia!