quinta-feira, 24 de julho de 2008

“Memória para uso diário”: dor, silêncio e lembranças, um documentário sobre a História brasileira que não está nos livros didáticos


por Pâmella Deusdará[1]

O medo seca a boca, molha as mãos e mutila. O medo de saber nos condena à ignorância; o medo de fazer nos reduz à impotência. A ditadura militar, medo de dizer, nos converteu em surdos e mudos. Agora a democracia, que tem medo de recordar, nos adoece de amnésia; mas não se necessita ser Sigmund Freud para saber que não existe o tapete que possa ocultar a sujeira da memória.
Eduardo Galeano



Num mundo dito globalizado, vivemos como afirma Ana Maria Monteiro, reconhecida pesquisadora da área de Ensino de História, a “presentificação do tempo”. O sentido do estudo da História parece se perder em meio a um vulcão de acontecimentos que assolam o mundo sob a égide efemeridade. Assistimos assim, a glorificação do momento, do “aqui” e do “agora” e sob essa ótica é possível problematizar a relação ambígua que mantemos com o nosso passado tão recente.


Em 2008 comemoramos os 40 anos de 1968, debates, seminários, passeatas e diversas manifestações culturais procuraram relembrar uma geração que acreditou que um mundo melhor era não somente possível, como necessário. Relembramos também, como no dia 28 de março, dia da morte do estudante Edson Luís, que muitos tombaram em nome desse sonho.


As comemorações revisitaram o colorido do Flower Power ou da Tropicalha, e a irreverência do mundo Hippie, mas também relembraram a violência e a tortura que caracterizaram a repressão aos movimentos sociais em 1968. No caso brasileiro, estamos falando principalmente da dura lembrança dos 40 anos do Ato Institucional nº 5 que, dentre outras prerrogativas, instituiu o fim do direito de Habeas Corpus, tornando todo cidadão suspeito, um culpado, institucionalizando na prática a tortura já existente nos porões da ditadura brasileira.


Lembrar e debater tais fatos atua no sentido, de como aponta o escritor uruguaio em seu texto intitulado A desmemoria/2, de tentar lutar contra a doença da amnésia. Nesse movimento doloroso e quase solitário, alguns poucos teimam em levantar este tapete, revirando arquivos abertos e lutando pela abertura de tantos outros que, trancados, tentam ocultar a sujeira de nosso passado.


Remando contra a maré do esquecimento está o Grupo Tortura Nunca Mais que em 2007, no mesmo ano do lançamento de um filme como Tropa de Elite, sucesso de público antes mesmo de ser lançado oficialmente, no qual a prática de tortura é naturalizada, lançou o documentário chamado Memória para Uso Diário[2]. Entrelaçando histórias de vidas torturadas, seja durante a ditadura militar ou mesmo durante o nosso atual ‘regime democrático’, o documentário, de maneira bastante eficiente, aponta para o perigo da produção de inimigos, ditos subversivos, terroristas, traficantes etc.


Alternando-se entre depoimentos de pessoas que sofreram a violência feita pelo Estado nos anos da ditadura oficial, e outras que vivenciam esta violência em nosso Estado pseudo-democrático, o documentário brilhantemente aborda uma questão que está ausente em nossos livros didáticos de história, qual seja: a capacidade de se produzir inimigos, sejam eles subversivos, comunistas, terroristas ou traficantes.


O documentário apresenta um trabalho muito interessante desenvolvido pelo Grupo Tortura Nunca Mais, chamado Projeto Clínico Grupal. Tal projeto procura através da prática clínica impedir que o tapete do “presentismo” tente ocultar a sujeira da História. Funcionando desde 1991, o projeto oferece apoio médico-psicológico dirigido a militantes torturados e familiares de mortos e desaparecidos políticos na época da ditadura. Entre os anos de 1996 e 1997, o projeto recebeu apoio da Comunidade Européia, o que possibilitou a ampliação do projeto permitindo a inserção de outros segmentos afetados pela violência, por exemplo, pessoas atingidas pela violência da ação policial atual.


Através do Projeto Clínico Grupal, os profissionais ligados ao grupo Tortura Nunca Mais buscam “abrir os arquivos de nossa memória”, lutando para romper com o silenciamento produzido por um Estado que investe no esquecimento. Acreditamos que em tempos onde jovens são cruelmente aprisionados e entregues a traficantes pelas mãos do exército brasileiro, como no episódio recente no morro da Providência, é urgente lembrar do que este mesmo exército, ou outras esferas das forças repressivas do Estado, foi capaz para “assegurar a democracia”.


É preciso lembrar que assim como foi ‘necessário’ prender, torturar e assassinar vários brasileiros e brasileiras, ditos “subversivos”, a fim de proteger o país de uma “invasão comunista”, atualmente assistimos à produção de uma nova necessidade: prender, torturar e exterminar jovens pobres, moradores de comunidades, a fim de conter a ‘invasão do tráfico’. A mídia hoje muito mais desenvolvida, atua cotidianamente na produção de um consenso no sentido gramsciano, dando visibilidade e também produzindo uma “guerra particular”, que assim como a guerra contra o comunismo, atende a determinados interesses.


Partindo dessa reflexão, um Ensino de História que se deseja problematizador, e que busque produzir uma relação significativa entre passado e presente, encontra em Memória para uso diário um excelente material didático, capaz de estimular um intenso e urgente debate, junto a uma juventude que aplaude ao filme Tropa de Elite sem se quer pensar sobre os significados de frases como “Pega o saco!”.

[1] É pesquisadora do Observatório da Indústria Cultura, professora de História na Educação Básica e beneficiada pelo Projeto Clínico Grupal do Grupo Tortura Nunca Mais.
[2] Filme dirigido por Beth Formaggini, com apoio financeiro da União Européia.

Um comentário:

José Rodrigues (JR.) disse...

A equipe clinica grupal do Tortura Nunca Mais é uma aposta no uso da prática clinica como um importante dispositivo produtor de outras histórias; outros caminhos e modos de existencia. Porem, para muitos que sofreram com as torturas direta ou indiretamente praticas pelos militares, dar um passo a frente não é tão simples.
A ditadura brasileira compôs uma verdadeira máquina de produção de subjetividades submissas e vidas despotencializadas. Tal aparelho, munido das mais variadas tecnicas de tortura e intimidação, não foi capaz, de por si proprio, calar toda uma geração.
Hoje em dia, onde está o inimigo a ser enfrentado? onde estão os instrumentos de coerção? onde estão os agentes do silenciamento e os soldados da dor? onde estão as vitimas? Parece que uma nevoa sorrateira e descompromissada paira sobre o horizonte tornando o discernimento de suas linhas e das figuras que por ele transitam uma tartefa ardua.
A impressão é que em nosso tempo - do presente continuo (hobsbawn)- nos tornamos cegos por vermos demais. Nessa sociedade dita de espetaculo o mar de imagens que nos atravessa tambem nos carrega em suas mares bravias quase nos afogando com suas ondas multicores.
Hoje, muitas são as questões a serem feitas; muitos são os problemas a serem colocados em analise; inumeros são os métodos de pesquisa e de investigação. Porem, a pergunta que é um sussurro quase um grito é, para mim, como é possivel viver como vivemos? como nos tornamos tão descrentes de nossas proprias vidas? como aceitamos naturalmente tantas miserias e dor? para tentar responder a estes "como", o uso da história é fundamental.

abraço,