quarta-feira, 18 de junho de 2008

Crônica de mortes anunciadas



por Adriana Facina (UFF/Observatório da Indústria Cultural)


Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor

No meu Brasil

Que o negro construiu

Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor

No meu Brasil


A injustiça vem do asfalto pra favela

Há discriminação à vera

Chegam em cartão postal

Em outdoor a burguesia nos revela

Que o pobre da favela tem instinto marginal

E o meu povo quando desce pro trabalho

Pede a Deus que o proteja

Dessa gente ilegal, doutor

Que nos maltrata e que finge não saber

Que a guerra na favela é um problema social

Eu não sou marginal


Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor

No meu Brasil

Que o negro construiu

Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor

No meu Brasil


A injustiça tem o colarinho branco

Usa sapato e tamanco compra tudo que quiser

Tem limusine, avião, BMW

Compra sua imunidade só pra agir de má fé

Enquanto isso os favelados vão sofrendo

E por aqui vou escrevendo

E vou cantando a minha dor, doutor

Indignado com tanta corrupção

Que maltrata os inocentes e alivia o ladrão

Com o tal do mensalão


Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor

No meu Brasil

Que o negro construiu

Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor

No meu Brasil
(Rap da Igualdade, MC Dolores)


A bela letra do MC Dolores, artista negro, criado na favela da Rocinha, a maior da América Latina, foi a primeira coisa que me veio a mente quando comecei a ouvir as notícias do absurdo assassinato de Marcos Paulo da Silva Correia, de 17 anos, Wellington Gonzaga da Costa, de 19 anos, e David Wilson Florêncio da Silva, de 24 anos. Moradores do Morro da Providência, onde surgiu a primeira favela carioca e cenário de muitas histórias constitutivas da identidade urbana do Rio de Janeiro, as suas mortes foram o resultado de um projeto macabro que associa um pastor-político, o Exército e novas-velhas modalidades de criminalização da pobreza muito em voga em nossa cidade.


Os rapazes tinham o perfil sociológico de quem, em nossa sociedade brutalmente desigual, está marcado para morrer. Jovens, favelados, voltavam de um baile funk, principal divertimento da juventude pobre hoje. Não sei se eram negros, mas provavelmente usavam as roupas que a mídia ajudou a estigmatizar como figurino de bandido: bonés, bermudas ou calças jeans, camisetas, tênis. Alegres e temporariamente empoderados pelo batidão, se sentindo um pouco mais livres, comentando sobre as gatas do baile, corpos que se expressaram na dança potente, aliviando a pressão. No seu caminho, uma invasão cuja arbitrariedade já havia sido denunciada por movimentos sociais e pela mídia alternativa. Disfarçados pela farda, braços do estado, bandidos interromperam a alegria do fim de festa. Abusos, palavrões, tapas, armas apontadas. Em resposta, alguma reclamação, talvez mesmo alguma menção a direitos do cidadão, como o de ir e vir, quem sabe, algum mais indignado “vai tomar no...”.


Como todo mundo sabe, bandido não perdoa. Surge a sinistra idéia do mercado de carne humana. Celulares e tecnologia à disposição da selvageria. Pagos com dinheiro público. Transporte de corpos vivos. Tortura de corpos semi-vivos. Corpos mortos desfigurados no lixão. Mães chorando sobre cadáveres confundidos com os restos da sociedade de consumo, como a lembrar aos moradores da Provi e a todos os favelados do Rio de Janeiro que eles são o lixo da nossa sociedade.


Indignação no cemitério. Protestos nas ruas. E mais repressão. Nas manchetes dos jornais da mídia cúmplice, que legitima os inseticidas sociais propagados pelas forças de insegurança pública, o protesto e a indignação viram ações de marginais: “tráfico fecha comércio”, “tráfico quer Exército fora do morro da Providência”. Covardemente, acabam por legitimar a criminalização e a repressão implacável do povo favelado. Consumado o assassinato de fato, a chacina simbólica continua em forma de “notícia”.


Presos os 11 militares responsáveis diretos pelo crime, as autoridades vêm a público prometer justiça. No entanto, sabemos que aqueles que realmente criaram essa situação estão protegidos. Quem vai responder pelo envio do Exército para atuar fora de suas funções nessa comunidade? Quem clamou por essa solução de sitiar toda uma população sob suspeita simplesmente pelo fato de ser pobre? Quais são as autoridades públicas, as empresas e os setores da sociedade civil que têm as mãos manchadas de sangue ao irresponsavelmente elaborar, executar, apoiar e legitimar uma política de extermínio de pobres em nosso estado?


A dificuldade em achar imagens dos jovens mortos na imprensa contrasta com a superxposição das fotos dos envolvidos no “caso Isabela”, mostrando claramente que a desigualdade na cobertura e na indignação midiática corresponde a uma espécie de bolsa de valores da vida humana, na qual as ações das vidas de gente como Marcos, Wellington e David valem muito pouco. E nessa lógica, é justamente o poder público que as mantém em baixa.
Em meio à dor, ao sofrimento, ao abandono, à revolta, confrontados com a solene indiferença dos que não se reconhecem como iguais a esses seres humanos, só resta o pedido à providência divina, que não é a do Crivella: proteção contra essa gente ilegal, doutor.

4 comentários:

radiomamaterra disse...

Olá, Adriana Facina ,
fui chamado a atencao para o seu artigo,por alguém que nao conheco pessoalmente.
Fiquei positivivamente impressionado pela sua análise, e gostaria de manter contato contigo aqui do maue exílio dourado. Vejo que a minha escola UFFeana continua dando boas frutas.
axé marcos romao www.mamaterra,de

A Deba! disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Debora disse...

É realmente interessante a diferença de abordagem da mídia em relação ao caso da menina paulista - que foi explorado até o último detalhe, com direito a detalhes sádicos em pleno dia das mães - e o assassinato desses três jovens no Rio; a manipulação no primeiro caso foi tamanha a ponto da população "se sentir indignada" e ir protestar em frente à delegacia de polícia, dentre outras bizarrices. Entretanto, morte de adulto pobre vende menos que morte de criança classe média. Para quê discutir sobre exclusão social, preconceito, dentre outros assuntos (q são coisas que afetam a todos nós), se o público pode se comover com o drama particular de uma família de classe média? Para q expor nossas feridas sociais???

Observatório da Indústria Cultural disse...

Parabéns pelo texto, ficou ótimo. É muito bom relembrarmos que a "sociedade civil"que tem classe, clama e apoia ações das quais depois tenta a todo custo se desrenponsabilizar, assim como em 1964. Como denúncia o Chico, " dormia a nossa pátria mãe tão distraída", mas parece que ainda dorme.
Bjs
Pâmella