terça-feira, 30 de outubro de 2007

Os “madraçais[1]” da grande mídia ou o império da neutralidade X os socialistas fora de moda.



Elogio da Dialética


A injustiça passeia pelas ruas com passos seguros.
Os dominadores se estabelecem por dez mil anos.
Só a força os garante. Tudo ficará como está.
Nenhuma voz se levanta além da voz dos dominadores.
No mercado da exploração se diz em voz alta:
Agora acaba de começar!
E entre os oprimidos muitos dizem:
Não se realizará jamais o que queremos!
O que ainda vive não diga: jamais!
O seguro não é seguro. Como está não ficará.
Quando os dominadores falarem
falarão também os dominados.
Quem se atreve a dizer: jamais?
De quem depende a continuação desse domínio?
De nós.
De quem depende a sua destruição? Igualmente de nós.
Os caídos que se levantem!
Os que estão perdidos que lutem!
Quem reconhece a situação como pode calar-se?
Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã.
E o "hoje" nascerá do "jamais".
Bertold Brecht (1898-1956).



“Assim como os internatos muçulmanos, as escolas dos sem-terra ensinam o ódio

e instigam a revolução. Os infiéis, no caso, somos todos nós”.

(VEJA Edição 1870. 8 de setembro de 2004.)




Sou um destes jovens antiquados que acreditam que as pessoas tomam posição/partido sempre que se colocam sobre alguma questão, ou mesmo quando dizem que não têm posição. Sou realmente fora de moda, acredito que a classe trabalhadora tem uma missão, não religiosa, mas histórica de construir sua grande narrativa.

A revista VEJA, este conhecido panfleto reacionário, apesar de criticar os que assumem uma posição crítica frente à realidade, tem posição, e toma partido. Seu partido é o capital, e seus membros a burguesia. Em sua “Carta ao leitor” da Edição 2030, de outubro de 2007, ela afirma que:
“[...] se orgulha de contribuir para o progresso, por meio do cumprimento da missão que se atribuiu desde o começo de sua história – a de ser uma publicação que mantém seus leitores bem informados, fiscaliza o poder e não se furta a dizer o que julga correto.”[2]

A carta citada que tem o título “o País que queremos ser”. Nela a VEJA apresenta uma campanha institucional sobre a devastação do meio ambiente, mas nada fala sobre quem produz isso, e qual a relação entre destruição do meio-ambiente e o modelo capitalista de desenvolvimento, modelo com o qual ela se orgulha de contribuir. Que progresso é este do qual ela fala? Não é o mesmo que devasta o meio ambiente e explora trabalhadores, os escravizando e/ou subempregando? Defender o capitalismo a todo custo não é um dogma? Nada mais fundamentalista do que a posição da VEJA. Ela condena todos os que pensam diferente dela ao dogmatismo, com a finalidade de desqualificar o debate.

Pena a revista ter mais páginas, pois tive que ler, mesmo sabendo que corria o risco de sofrer um processo irreversível de idiotia. O que me trouxeram as suas páginas seguintes, além da náusea e muitas campanhas publicitárias: um entrevista com Fernando Haddad - ministro da educação – sobre a educação no Brasil, e sobre a relação entre ideologia e educação. O título da entrevista é bem sugestivo, a saber: “Longe dos dogmas”. O primeiro erro é tratar o marxismo como dogma. O segundo erro é defender a existência da neutralidade. Mas os erros não são da VEJA, nem tão pouco de Haddad, pois ambos sabem muito bem o que estão defendendo.

A entrevista é um absurdo, uma seqüência de “erros”. Um das partes mais problemáticas é quando o ministro fala sobre o problema do nível da educação brasileira frente a outros países, apontando como causas da baixa qualidade da educação a forma como a história e tratada nos livros e nas salas de aula, pois segundo ele a história deve ser vista a partir de uma visão contemporânea. O que seria essa “perspectiva contemporânea”? Essa perspectiva não seria a pós-moderna? Porque ele não fala das condições de ensino aprendizagem no país? Pelo que fala, todos os problemas da educação brasileira se resumem ao ensino de história. Nada é mencionado sobre a condição de vida dos professares no país, dos seus baixos salários, nem de sua jornada de trabalho. E sobre a falta de uma política que permita efetivamente a formação destes profissionais de forma continuada. Nada! Apenas a culpabilização do outro, e o outro neste caso é o elo mais fraco, são professores como Mario Schmidt, os educadores do Paraná que produziram os LDPs (Livros Didáticos Públicos), que foi uma saída importante frente aos preços absurdos do mercado editorial, do qual as revistas Época e VEJA fazem parte.

As escolas são concretas, com seus educandos, professores, funcionários, e vizinhos. Deve ser esse o motivo que impede Haddad, Época e VEJA de perceberem os reais problemas da educação. Por isso, defendem o pragmatismo, e a utilização de métodos meritocráticos de avaliação para as escolas. O Ministro da (des)educação afirma que está sendo criado um ranking para classificar as escolas. Em um grupo estarão as boas escolas, formadoras de capital humano de qualidade, que vão para o céu das premiações e da autonomia. Outro grupo será constituído pelas ruins, estas vão para o inferno da ineficiência e do vexame. É importante pensar como vão se sentir as crianças das escolas classificadas e marcadas como sendo de qualidade baixa, e, portanto formadoras de capital humano de segunda ordem. Como se sentirá uma criança que estuda em uma escola que está fora do céu da qualidade? Quais os impactos em sua auto-estima? E na própria escola? Quero que me digam que qualidade é essa de que falam, quero que a qualifiquem.

Ao contrário do que pensa Haddad e a revista VEJA, e os que compartilham da mesma opinião, é necessário ser radical, ir à raiz da questão, mas o pragmatismo não consegue, nem tampouco a meritocracia. Ambos só servem para legitimar este estado de coisas. Como disse Tomasi di Lampedusa, em O Leopardo, "É preciso mudar para que tudo permaneça como está". Por isso, as mudanças realizadas pelo MEC são mudanças pela não mudança.

O pensamento único domina os meios de comunicação. Há um ar de semelhança em tudo, apenas uma voz gritando alto, e não é a voz da classe trabalhadora, mas sim da burguesia. Essas vozes invadem nossos lares, ocupam nossos olhares e ouvidos, nos impondo suas visões de mundo através dos diversos meios de comunicação social que burguesia domina.

Esse discurso único da mídia tem que ser combatido, pois “o discurso não é um mero instrumento passivo na construção do sentido que tomam os processos sociais, as estruturas econômicas ou os conflitos políticos.” [3] Temos que nos preocupar com o recrudescimento dos discursos da burguesia, com as bandeiras que levanta.

Veículo “neofascista” mais conhecido do país, a Revista VEJA merece ser analisada com muito cuidado. Temos que estar tentos, e não deixar que seja a única voz ouvida pelas ruas. Ela está bem preocupada em regular o que é ensinado nas escolas, pois não está satisfeita em doutrinar uma parcela significativa da sociedade que a lê. Sua ação não está restrita à perseguição ideológica aos livros didáticos, ela atua também na produção de materiais didáticos. Por isso lançou, em 1998, o programa “VEJA NA SALA DE AULA”, que “atende a milhares de escolas, públicas e privadas”. Os “Seus planos de aula tomam por base as reportagens, os artigos e as entrevistas publicadas por VEJA” (Apresentação do programa: VEJA NA SALA DE AULA). [4] Imaginem o que deve constar nesse material. Isso sim é preocupante. Devemos nos perguntar: quanto custa esse programa? Quando isso representa no mercado? Percebemos que essa disputa ideológica não está isolada da disputa do mercado editorial, que movimenta milhões, e no Brasil os livros didáticos são certamente o mercado mais rentável, e o governo o maior comprador, bem como um grande anunciante.

Essa preocupação da revista VEJA com o que é ensinado nas escolas é compartilhada no Rio de Janeiro pelas milícias, que têm tido um crescimento significativo nas favelas cariocas. Estas também têm regulado o que é ensinado nas escolas das áreas que controlam. Lá os conteúdos críticos também são combatidos. Há, mais uma vez, uma estranha semelhança no ar.

Segundo Marx, fatos e os personagens de grande importância na história do mundo se repetem, sendo que “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. A primeira das muitas tragédias da VEJA(que iremos tratar) foi à matéria: “Madraçais do MST[5]”, na qual a revista (dês)trata da educação que é realizada nas “[6] 1.800 escolas instaladas em acampamentos e assentamentos do MST[7]”, nas quais estudam “crianças entre 7 e 14 anos de idade” [8]. Logo no título podemos perceber o preconceito da revista tanto em relação aos sem terra, quanto aos islâmicos. O conteúdo segue a mesma linha preconceituosa, pois de outra forma não há como sustentar os absurdos infundados que expõe. Os números da educação nos acampamentos e assentamentos conquistados pelas lutas travadas pelo MST são impressionantes[9]. Isso mostra que o Movimento dos Sem Terra têm contribuído de forma decisiva para ampliar as possibilidades de acesso desatas populações a educação, bem como a terra e ao trabalho. Isso é uma vitória, em um país que tem historicamente níveis educacionais muito baixos neste segmento da população brasileira.

Agora a história se repete, lembrando que como farsa, quando, em outubro de 2007, a revista publica uma nova matéria sobre o MST e a educação, com o mesmo formato, os mesmos argumentos (ou falta deles). Seu título desta vez é: “Invasão na universidade”. Se olharmos as duas matérias nós encontraremos muitas semelhanças, como a citação da existência do que eles chamam de “calendário vermelho”. Uma das críticas principais da revista nesta matéria é de que “as disciplinas são definidas em assembléias nas quais os alunos têm cadeira e direito a voto[10]”. Ter participação democrática dos educandos nas escolhas dos conteúdos é um problema segundo revista. São posições como estas que nos mostram em que mundo a revista acredita, e que democracia ela defende. Não é um direito poder pensar livremente? E estudar os conteúdos que julgo ser necessários para minha formação? Ainda mais se sou adulto. O problema central é a manutenção dos agricultores fora da universidade. Pois os setores sociais dos quais VEJA é porta-voz são contra a agricultura familiar e a favor do agronegócio. Há também o seu olhar preconceituoso sobre os sem terra, sobre o campesinato, sobre os pobres, que fica claro em suas matérias, em suas posições. Mesmo que a VEJA diga não ter posição, mesmo que diga não ter ideologia, sabemos que é mentindo que veicula suas desinformações, como sempre tem feito. Ela deveria mudar o texto no qual descreve sua missão, e nele deixando claro que o seu papel, que é manter viva nos corações dos burgueses a chama do fascismo, deixar alerta a burguesia, e atacar qualquer posição que aponte para uma alternativa ao capital.
Mas os trabalhadores vão continuar se organizando, e vão ser ouvidos, não apenas pelos dominantes, mas pelos seus iguais. A injustiça não pode passear tranquilamente pelas ruas, os burgueses não podem continuar a condenar os pobres à morte e à miséria.

[1] Termo utilizado pela veja em matéria intitulada, “Madraçais do MST”, disponível no site http://veja.abril.com.br/080904/p_046.html
[2] Revista VEJA de 17 de outubro, 2007. Pagina 9
[3] Jesus Martin-Barbero
[4] Extraído de: http://veja.abril.com.br/idade/saladeaula/guia/guia.html
[5] Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
[6] Trecho extraído da revista VEJA (Edição 1870. 8 de setembro de 2004).
[7] idem
[8] Idem
[9] A luta e pela educação travada pelos acampados e assentados não esta restrita a educação básica dos que estão na idade socialmente própria, mas também na Alfabetização de Jovens e Adultos( EJA), bem como na educação de nível superior. Essa reivindicação é legitima, mesmo dentro de uma sociedade como a brasileira, que é marcada pela desigualdade e violação de direitos fundamentais.
[10] Extraído de Revista VEJA. Edição 2028 3 de outubro de 2007, http://veja.abril.ig.com.br/031007/p_072.shtml
Mardonio Barros (MST/Observatório da Indústria Cultural)

3 comentários:

Roney Belhassof disse...

Estou deixando este comentário apenas pq sei que para cada 100 pessoas que gostam de um post apenas uma deixa um comentário elogiando e pelo menos outras 10 aparecem para criticar agressivamente ;-)

Discordo de pouco ou nada do que vc disse e portanto não vou comentar o post em si, mas tenho uma sugestão.

Sei que é muito difícil, mas textos menores, com no máximo 4 parágrafos, atingem melhor o leitor internauta médio.

Abraços e parabéns pelo excelente blog!

O empírico disse...

Concordo com o post acima, no entanto imagino a sinuca de bico que vc fica em ser totalmente claro sem explanar o assunto o máximo possível.

De fato, a Veja, de imparcial não tem nada, como nenhum outro veículo. Mas de fato é preocupante o seu poder de penetração.

Mas ela não é a única, o "caso Veja" talvez seja apenas o caso mais notório(tem o problema de ter circulação nacional também). Não é a toa que cobra mais alto o anúncio. Já tive essa tabela com os preços em mãos, e não tenho mais. De qualquer forma lembro que eram absurdos correspondendo a vários zeros antes de qualquer outro número. (De nada adiantaria a informação, provavelmente os preços de anúncio aumentaram)

O grande problema é o eterno debate ciencia vs comunicação. Vocês tem a informação, mas nós dominamos o meio(entenda como nós nos fazemos entender).

Infelizmente, o povo(frase cheia de generalismos), a classe trabalhadora defendida no texto quer uma resposta rápida e prática para a sua realidade. Trocar a verdade em que todo mundo ganha um prêmio na Mega Sena, ou se torna jogador de futebol, ou é promovido na empresa é estranha quando as condições envolvem dizer que o desgraçado é você mesmo.

Não sei se me fiz entender, e me privo de continuar estendendo o assunto no momento(ele pode, e deve, ficar bem maior). De qualquer forma meu comentário serve para levantar o debate sobre a questão.

Anônimo disse...

Obrigado pelos comentários, concordo sobre a extensão do texto, bem como sobre a necessidade de comentários, não para elogiar os textos, mas que tenham posições que vá, assim como os textos, na contramão do discurso reacionário.
Mardonio Barros